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Filarmônica da UFRN faz concerto com pianista Durval Cesetti

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Todo sentimento: Filarmônica da UFRN faz concerto com pianista Durval Cesetti

O Auditório Onofre Lopes, na Escola de Música da UFRN (EMUFRN), recebe no dia 11 de abril o concerto Todo Sentimento, com duas sessões, às 18h e às 20h. Os ingressos estarão disponíveis a partir das 8h do dia 8 de abril, pela plataforma Sympla, e também poderão ser adquiridos uma hora antes de cada apresentação.

Em meio à rotina acelerada, a proposta do concerto é simples e necessária: criar um tempo para sentir. A música, nesse contexto, surge como um espaço de pausa e escuta, onde as emoções podem se desenvolver sem interrupção. Mais do que uma apresentação, o evento convida o público a desacelerar e se permitir vivenciar aquilo que, no cotidiano, costuma passar rápido demais.

A regência é do professor André Muniz, da EMUFRN, e o concerto conta com a participação do pianista Durval Cesetti. Docente da Escola de Música da UFRN, Cesetti é reconhecido por uma trajetória que combina rigor técnico e sensibilidade interpretativa. Com formação completa pela McGill University, no Canadá, onde concluiu bacharelado, mestrado e doutorado, o músico já se apresentou em palcos de prestígio internacional, como o Carnegie Hall, em Nova York, e o National Centre for the Performing Arts, em Pequim. Confira:

Descrito como um pianista de rara musicalidade, Cesetti construiu uma carreira marcada por colaborações com importantes maestros e por interpretações que priorizam a comunicação direta com o público. Sua participação no concerto reforça a proposta central da apresentação, fazer da música um espaço de experiência sensível, íntima e compartilhada.

SAIBA MAIS: Música de matriz negra guia estreia da temporada 2026 da Filarmônica UFRN

O concerto integra a temporada 2026 da Filarmônica da UFRN, realizada em parceria com a EMUFRN e a Pró-Reitoria de Extensão. A iniciativa conta com patrocínio da Caixa Assistencial Universitária do RN e do Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Norte, além de produção da Da Capo Produções Artísticas. A Filarmônica também recebeu apoio por meio de emenda parlamentar do deputado Fernando Mineiro.

Serviço
Data: 11 de abril (sexta-feira)
Horários: 18h e 20h
Local: Auditório Onofre Lopes, Escola de Música da UFRN (EMUFRN)
Ingressos: disponíveis a partir das 8h do dia 8 de abril, pela plataforma Sympla, e também uma hora antes de cada sessão, na bilheteria



Fonte: saibamais.jor.br

Auditoria do TCU investiga execução da obra da engorda de Ponta Negra

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Auditoria do TCU investiga execução da obra da engorda de Ponta Negra
Faixa de areia engordada registra alagamentos recorrentes sempre que chive em Natal. Foto: Reprodução

O Tribunal de Contas da União (TCU) abriu um processo de auditoria, registrado sob o número 018.819/2025-7, com o objetivo de fiscalizar a obra da engorda da Praia de Ponta Negra, na Zona Sul de Natal. O relator do caso é o ministro Antônio Anastasia. O expediente faz parte do Fiscobras – plano anual que audita a regularidade da execução de obras financiadas pelo Governo Federal.

De acordo com o TCU, o procedimento é conduzido pela Unidade de Auditoria Especializada em Infraestrutura Urbana e Hídrica (AudUrbana).O processo encontra-se atualmente em estado “aberto”.

O último andamento, segundo o site do TCU, foi registrado no último dia 31, com o envio de ofício ao órgão pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), vinculada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR).

A deputada federal Natália Bonavides (PT) comentou que a auditoria do TCU sobre a engorda de Ponta Negra “não é pouca coisa”.

“Há indícios de falhas graves na execução, problemas de drenagem, descumprimento de licença ambiental e até retenção de recursos federais após vistoria da Defesa Civil Nacional”, disse ela em publicação nas redes sociais.

A auditoria visa verificar se houve eventuais irregularidades na execução da obra pela Prefeitura de Natal. Um relatório de novembro de 2024 da Defesa Civil Nacional apontou que a engorda, oficialmente concluída em janeiro de 2025, não poderia ter sido feita sem o fim da drenagem.

O documento é resultado de uma vistoria realizada pela Defesa Civil Nacional, financiadora da obra, entre 23 e 25 de outubro de 2024.

“O aterro hidráulico só deverá ser iniciado após a finalização dos dissipadores e demais estruturas de drenagem previstas para área”, diz trecho do relatório.

Outro relatório da Defesa Civil Nacional, realizado após uma inspeção nos dias 6 e 7 de fevereiro de 2025, quando a faixa de areia alargada ficou alagada em razão das chuvas de quase 100 milímetros que atingiram Natal, apontou problemas na drenagem da engorda de Ponta Negra, além do descumprimento na Licença de Instalação e Operação (LIO).

O órgão recomendou ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional a retenção de cerca de R$ 4 milhões referentes ao pagamento da parcela final dos recursos da obra.

A Defesa Civil Nacional também recomendou que a Prefeitura de Natal contratasse novos estudos para solucionar o acúmulo de água de chuva na área da engorda. Além disso, também foi orientado que o município solucionasse os problemas de ligações clandestinas de esgoto na rede de águas pluviais.

O relatório apontou ainda que não há nenhum documento de fiscalização externa da obra, o que descumpre uma das metas do projeto. No documento, é exigido que o município protocole relatórios mensais de fiscalização externa à obra.

Obra realizada sem fiscalização

Faixa de areia engordada registra alagamentos recorrentes sempre que chive em Natal. Foto: Reprodução

A engorda foi realizada sem acompanhamento de órgãos de fiscalização. Em outubro de 2024, um mandado de segurança obtido pela Prefeitura de Natal proibiu o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) de intervir na engorda com a justificativa de que o empreendimento já estava licenciado, não havendo assim a necessidade de ser fiscalizado.

A falta do projeto de drenagem vem provocando sucessivos alagamentos na faixa de areia engordada da praia a cada chuva que ocorre em Natal. Na semana passada, a área voltou a registrar acúmulo de água.

As chuvas também provocaram a formação de uma vala, conhecida como voçoroca, na região próxima à base do Morro do Careca. O fenômeno se repete desde a inauguração da obra, agravando a erosão naquele que é um dos cartões-postais mais famosos de Natal.

Professor alerta que, sem projeto definitivo de drenagem, erosão se agravará

Voçorocas provocam erosão crescente que ameaça o Morro do Careca. Foto: Reprodução

Em fevereiro, após o registro de mais uma voçoroca, João Abner, engenheiro, professor aposentado e fundador do curso de pós-graduação de Engenharia Ambiental da UFRN, alertou que praticamente não existia mais areia usada na obra da engorda perto do Morro do Careca.

De acordo com ele, sem um projeto de drenagem definitivo, o problema dos alagamentos na orla da praia e da perda de sedimentos só se agravarão.

A Prefeitura de Natal alega que a drenagem foi concluída com a instalação de 16 dissipadores ao longo da orla de Ponta Negra. Ainda segundo o município, o projeto de drenagem da praia prevê que chuvas acima de 40 milímetros “não impedirão a formação de espelhos d’água”.

João Abner contestou a explicação da Prefeitura de Natal. Ele disse que as caixas dissipadoras instaladas para reduzir a velocidade da água durante o escoamento não aguentam volumes elevados de chuva.

Além disso, nenhuma dessas caixas, segundo o engenheiro, pode ser considerada tecnicamente um “dissipador”. Ele afirmou que essas estruturas “foram mal projetadas”, porque, pela forma como foram feitas, estão “pressurizando o sistema”.

“Construíram caixas de descarga para permitir que a água saísse por cima do aterro, o que terminou provocando dois problemas: a criação das lagoas e a pressurização da rede de drenagem. Isso vai se inviabilizar com grandes chuvas e interferir no esgotamento sanitário, porque os reservatórios são conectados e transbordam para o sistema de drenagem”, completou.

Seinfra diz que alagamentos são “situação esperada”

Foto: Mirella Lopes

De acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra), os alagamentos na engorda são uma “situação esperada”. A pasta afirmou, no mês passado, que estava elaborando um “projeto complementar” de drenagem para resolver o problema em definitivo.

O professor de Engenharia Civil e Ambiental da UFRN e coordenador do Laboratório de Geotecnologias Aplicadas Modelagem Costeira e Oceânica (GNOMO), Venerando Eustáquio, alertou que a perda de sedimentos, provocada pelo escoamento da areia para o mar, podem comprometer a engorda da Praia de Ponta Negra.

Para ele, a justificativa da Seinfra para os alagamentos não é tecnicamente aceitável: “O que a Prefeitura de Natal chama de ‘situação esperada’, na verdade, não deveria ser avaliada desse modo, uma vez que o alagamento que aconteceu imediatamente após a finalização da engorda, em março do ano passado, causou uma fragilização imensa no aterro, sobretudo ali nas proximidades do Morro do Careca. Isso jamais poderia ser considerado algo esperado”, declarou.

Obra custou mais de R$ 100 milhões

A engorda da Praia de Ponta Negra foi oficialmente concluída no dia 25 de janeiro de 2025. A obra, orçada em mais de R$ 100 milhões, ampliou a faixa de areia em até 100 metros na maré baixa ao longo de 4,6 km, desde a Via Costeira até o Morro do Careca, um dos principais cartões-postais de Natal.

Foram usados aproximadamente 1,3 milhão de metros cúbicos de areia na obra. Desde a sua inauguração, no entanto, a engorda apresentou problemas, principalmente com os alagamentos, em razão da falta de drenagem do projeto.

Fonte: saibamais.jor.br

Cristiane Dantas comenta ações da saúde e Coronel Azevedo sobre promoções de policiais

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A deputada estadual Cristiane Dantas (PSDB) fez uma prestação de contas de seu mandato na área da saúde, nesta terça-feira, 7 de abril, Dia Mundial da Saúde. A parlamentar citou a destinação de emendas para obras e ações em vários municípios do Estado, e enumerou algumas das 20 leis de sua autoria.

As leis envolvem as campanhas nacionais do ‘Setembro Dourado’, de conscientização sobre o câncer infantojuvenil; o ‘Maio Cinza’, de conscientização sobre o câncer de cérebro e sistema nervoso central; o ‘Julho Verde’, de conscientização sobre a prevenção e o combate ao câncer de cabeça e pescoço; o ‘Junho Vermelho’, sobre a importância da doação de sangue.

Ainda no horário de deputados, último momento da sessão ordinária, o deputado Coronel Azevedo (PL) comentou sobre o envio da mensagem enviada pela governadora Fátima Bezerra (PT), que institui o sistema de promoções por merecimento, e que já foi lida em plenário. O parlamentar se dirigiu a representantes da categoria que acompanhavam a sessão. “O maior valor não são as armad, não são as viaturas, os equipamentos, são os senhores e as senhoras, os heróis da sociedade”, afirmou o deputado.

Trilhas Potiguares abre seleção para edição na Amazônia

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A Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Proex/UFRN) abriu inscrições para a seleção de equipes que irão participar da edição Trilhas Amazônia, vinculada ao Programa Trilhas Potiguares. O prazo segue até o dia 14 de abril.

Ao todo, estão sendo ofertadas até 15 vagas, destinadas a servidores docentes, técnicos-administrativos e estudantes regularmente matriculados em cursos de graduação da UFRN, condicionadas à disponibilidade orçamentária.

Para participar, os interessados devem submeter propostas de ações de extensão nas modalidades projeto, curso ou evento. As equipes precisam ser compostas por um servidor da universidade e dois estudantes de graduação.

As propostas devem estar alinhadas às linhas temáticas definidas a partir de levantamentos prévios sobre demandas e potencialidades das comunidades que receberão as atividades. Em fevereiro, a coordenação do programa realizou visitas diagnósticas no estado do Pará como etapa preparatória para a ação.

A edição Trilhas Amazônia está prevista para ocorrer entre os dias 14 e 20 de junho, com atividades nas comunidades de Curuçá, Outeiro, Tomé-Açu, Aurora do Pará, Ilha de Marajó e Ilha do Combú. A iniciativa conta com a parceria do Instituto Federal do Pará (IFPA) e da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).

Criado com o objetivo de promover a integração entre universidade e المجتمع, o Programa Trilhas Potiguares desenvolve ações de extensão voltadas ao fortalecimento de comunidades, a partir do intercâmbio de saberes e da atuação direta de estudantes e servidores.

Serviço

Seleção Trilhas Amazônia – UFRN
Inscrições: até 14 de abril
Público: servidores e estudantes de graduação da UFRN
Formato das equipes: 1 servidor + 2 estudantes
Período das atividades: 14 a 20 de junho
Local: comunidades no estado do Pará

Mais informações: edital disponível no site do Programa Trilhas Potiguares.

Fonte: saibamais.jor.br

Navio Negreiro vira musical e ecoa racismo atual em Natal

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Navio Negreiro vira musical e ecoa racismo atual em Natal

No palco, o mar não é paisagem, é travessia, memória e denúncia. Nos dias 6 e 7 de abril, o palco do Teatro Alberto Maranhão (TAM), em Natal, recebe o espetáculo musical Navio Negreiro, com duas sessões diárias, às 9h e às 14h. Uma releitura cênica do poema homônimo de Castro Alves, transformando a palavra escrita em corpo, música e imagem para revisitar uma das páginas mais violentas da história brasileira.

A proposta parte de um grupo de artistas da chamada “melhor idade”, reunidos em um retiro criativo que, sob a condução de um diretor teatral, decide encenar o clássico abolicionista. A escolha não se limita à adaptação de um texto literário: a montagem investe em uma abordagem lúdica e musical para tensionar passado e presente, conectando o tráfico transatlântico de africanos escravizados às formas contemporâneas de violência, racismo e desigualdade.

Escrito no século XIX, o poema de Castro Alves é reconhecido como uma das mais contundentes denúncias da escravidão. Na encenação, essa força é mantida como eixo central. A narrativa percorre o contraste entre a aparente tranquilidade do mar e a brutalidade dos porões dos navios, onde pessoas eram submetidas a condições desumanas durante a travessia até o Brasil. A montagem busca preservar esse impacto, ao mesmo tempo em que amplia o alcance do texto ao estabelecer paralelos com o presente.

A metáfora do navio, segundo a proposta do espetáculo, atravessa o tempo para discutir também a violência nas periferias urbanas, o racismo estrutural e as disputas por identidade e resistência do povo negro. A estética musical, com composições originais e canções de domínio público, funciona como fio condutor dessa narrativa, alternando momentos de lirismo e tensão.

Com duração de uma hora, o espetáculo é estruturado no formato de teatro à italiana, com encenação frontal. O elenco reúne nomes com mais de três décadas de experiência nas artes cênicas, entre eles Cida Lobo, Edinho Oliveira, Eliene Albuquerque, Sônia Castelo Branco e Melk Freitas, além da participação especial de Fafá Fialho.

A direção geral, cenografia, figurinos, iluminação e produção artística são assinadas por Clenor Jr., enquanto a direção musical é de Edinho Oliveira. As composições e arranjos também são divididos entre Oliveira e Cida Lobo, que conduzem a trilha do espetáculo, composta por 16 números musicais.

Entre as canções, estão títulos como “Máquina de Moer Gente”, “Corpo Acorrentado” e “Negras Mulheres”, que dialogam diretamente com os temas da montagem. A presença de músicas de domínio público reforça o caráter coletivo e histórico da narrativa.

Produzido pela Ribalta Produções em parceria com a Cia Monicreques, o espetáculo integra ainda ações voltadas ao público escolar, com a proposta de ampliar o debate sobre escravidão, memória e desigualdade racial para além do espaço teatral.

Ao trazer Navio Negreiro para o palco, a montagem reafirma a atualidade de um texto escrito há mais de um século. A poesia de Castro Alves, marcada pela denúncia e pela indignação, ressurge em cena como instrumento de reflexão sobre um país que ainda convive com as marcas profundas da escravidão.

Fonte: saibamais.jor.br

Vic Kabulosa e a força da Zona Norte na cena cultural

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Música e periferia: Vic Kabulosa e a força da Zona Norte na cena cultural
Foto: cedida

Na Zona Norte de Natal, território de potência e também de barreiras históricas, Vic Kabulosa aprendeu cedo que existir já era, por si só, um gesto de enfrentamento. Antes dos palcos, dos projetos coletivos e do nome que hoje ecoa como assinatura artística, houve uma infância atravessada pela música, e também por limites.

“Tudo começou na igreja”, conta. Foi ali, entre microfones, violão e bateria, que teve o primeiro contato com a música. “Foi onde eu cresci, onde tive acesso.” Mas o mesmo espaço que abriu portas também impôs silêncios. “Era um lugar de podas. De não poder ser feminina demais, de ter que ser um menino padrão”, relembra em entrevista à Agência Saiba Mais.

A ruptura não veio de uma decisão repentina, mas de um esgotamento. “Eu saí porque não me coube mais.” Do lado de fora, o mundo se apresentou como possibilidade, e também como desafio. Vic mergulhou na dança, especialmente nas danças urbanas, e passou a estudar música com mais profundidade. Ainda adolescente, começou a cantar em uma banda baile ligada à escola onde estudava. Foi ali que algo se acendeu. “Eu entendi que era cantora porque adorava me comunicar com o público.”

Mas essa presença, que hoje é potência, já foi motivo de exclusão. “Eu sempre fui a ‘amostrada’. E isso era um problema.” Com o tempo, ela transformou o que era apontado como excesso em linguagem artística. “Depois eu entendi que isso era verdade. E comecei a condensar isso artisticamente.”

Criada entre Santarém e Parque dos Coqueiros, Vic carrega a Zona Norte como fundamento de tudo que constrói. “Eu forjei a Kabulosa na Zona Norte”, diz. Mais do que um território, o lugar se tornou discurso. “A Zona Norte é um espaço de resistência.” Para ela, não se trata apenas de origem, mas de permanência. “Morar aqui já é resistência. Porque tudo é do outro lado, esse é o imaginário que as pessoas tem.”

A universidade, os equipamentos culturais, os grandes palcos, quase tudo parece distante. Ainda assim, ela circula: “Eu ocupo esses espaços, mas sem deixar de trazer a bandeira da Zona Norte.”

Foi também a partir desse trânsito que surgiu a Kabulosa. Antes, ainda era Vic. O nome que viria a marcar sua identidade artística nasceu de dentro, das relações e da linguagem cotidiana. Ganhou força quando ela passou a integrar os shows do MC Preguiça, figura central em sua trajetória. “Ele foi meu pai na noite potiguar. Me abriu as portas.” Vic começou como dançarina, mas não demorou a disputar o microfone. “Eu pedia pra cantar.” Aos poucos, o público passou a responder. E, no meio das apresentações, uma palavra começou a se repetir como grito e afirmação: Kabulosa!

Foto: cedida

O reconhecimento mais amplo veio no Beco da Lama. Foi ali que sua presença ganhou corpo.

No Beco, ela encontrou o público, a escuta. Sua mistura de referências, que atravessa forró, samba, funk, MPB, soul e black music, não afastou o público, como ela temia. Ao contrário. “Eu achei que seria difícil, mas encontrei uma galera sedenta por isso.” Essa mistura também é reflexo de sua própria trajetória fragmentada e múltipla. Dança, canto, performance. Nada vem separado. “Eu juntei tudo.”

Enquanto construía seu nome nos palcos, Vic também ocupava outro espaço historicamente negados a pessoas trans: a universidade. Hoje, é estudante de licenciatura em música e do curso técnico em canto popular na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “É uma forma de dizer que estamos lá”, afirma. Mas o processo não é simples. “É muito difícil não enxergar outros corpos como o meu.”

Por isso, sua trajetória nunca é só individual. Ao falar de si, Vic fala sempre no plural. Um dos nomes que aparece com frequência é Ale du Black. “Se eu existo hoje, é porque ela existe.” As duas constroem juntas iniciativas que tensionam a cena cultural da cidade, como o bloco Transfolia, que leva artistas trans para o Carnaval de Natal.

“É uma forma de se fazer existir”, resume.

Também atuam em projetos como o Festival Periferia Transborda, que articula formação e visibilidade. Mais do que ocupar espaços já dados, a proposta é criar outros. “A gente quer dizer quem pode estar, como pode estar.”

Esse gesto de criação coletiva surge como resposta a uma estrutura que, segundo ela, ainda empurra pessoas trans para margens muito específicas. “A gente sabe que existem caminhos que são quase impostos.” Transformar esse cenário pela arte, diz, é mais que desejo. “É uma missão.”

Nos últimos anos, Vic ampliou ainda mais seu campo de atuação. Estreou como atriz no curta “Praia das Artistas”, interpretando uma travesti que sonha em cantar. O filme dialoga diretamente com a cidade e suas memórias. “Me possibilitou acessar vivências que eu não tinha antes.”

Agora, ela se prepara para um passo que sintetiza tudo o que veio antes. Seu primeiro álbum autoral, “Kabulosa”, está em fase final de produção. “É a concretização de um sonho”, define. Mais do que um disco, o projeto marca uma virada. “É onde eu vou ditar o meu ritmo. O que eu quero falar.”

Se há um fio que costura toda a sua trajetória, ele passa pela insistência. Em existir, em permanecer, em criar. Em transformar aquilo que foi negação em linguagem.

No fim, o sonho que ela compartilha é direto, e coletivo. “A gente precisa parar de sobreviver e começar a viver disso.” Não como exceção, mas como regra.

A cada palco, a cada projeto, a cada verso, reafirma que sua voz não pede licença. Ela ocupa.


Esta reportagem faz parte da série Traquejo, da Agência Saiba Mais. O nome remete à habilidade de “se virar”, de encontrar experiências e seguir em movimento. A proposta é contar histórias de pessoas trans e travestis potiguares que, em contextos muitas vezes adversos, constroem seus próprios caminhos, criando estratégias e formas de fazer acontecer.

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Geja: arte, política e performance na construção de uma drag no RN
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Fonte: saibamais.jor.br

Historiador resgata em livro raízes indígenas apagadas no RN

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Historiador resgata em livro raízes indígenas apagadas no RN

Quantos indígenas você conhece? O apagamento dos povos originários é o tema do livro “Extremoz: silêncio indígena” (Editora Sebo Vermelho), do historiador Juarez Viana da Silva, que busca não somente revisitar o passado, mas compreender o porquê poucas pessoas se identificam como indígenas no município atualmente.

Segundo o IBGE, Extremoz possui 109 pessoas indígenas — 107 na área urbana e dois em contexto rural, em meio a uma população de 61.635 habitantes segundo o Censo de 2022. Em todo o estado, a população indígena atinge 11.725 pessoas. Ainda que possa ser considerado um número baixo, o IBGE havia contado 2.597 pessoas indígenas no RN no Censo de 2010, o que correspondia a 0,08% da população residente no estado. Ou seja, a população autodeclarada indígena aumentou 351% em 12 anos.

“Todos os municípios da época da dominação foram criados a partir de aldeias indígenas: Extremoz, Arez, Apodi, São José do Mipibu, Nísia Floresta, Canguaretama, Portalegre, Vila Flor. Mas também vemos resistência como o Amarelão em João Câmara, Catu em Baía Formosa e outras que estão no processo de organização”, conta Juarez Viana. 

“Esse apagamento também vejo nas aldeias Tapuios no interior do Rio Grande do Norte, devido às Guerras dos Bárbaros e Justa para captação de escravos, além de combater a não catequização, converter a servidão e controle nas drogas do sertão”, afirma.

Saiba Mais: João Câmara tem maior população indígena do RN; Natal, a segunda

O historiador diz que a motivação para escrever a obra veio ao identificar o número tão baixo de indígenas em Extremoz. Em 2021 ele já lançou o livro “Guajuru: registro da indiferença”, que aborda o nascimento e o abandono da Igreja São Miguel.

“O primeiro livro surgiu de uma aula de campo, que me levou a organizar os conteúdos em um único livro, respondendo ao objetivo da ruína da igreja e a não existência de indígenas. O resultado foi o registro da indiferença em todos os níveis”, conta. Já a obra atual veio após os números do Censo 2022. “Portanto, Extremoz deve conhecer suas origens Tupi Potiguara”, defende.

A história de Extremoz — e também do Rio Grande do Norte e do Brasil — é marcada por conflitos que causaram a invisibilidade indígena. Essas marcas ainda permanecem: o RN é o único estado do Brasil a não ter nenhum território demarcado.

Saiba Mais: Indígenas do RN começam 2026 à espera de demarcação de terras

“Nós não fomos descobertos, fomos dominados, por não sermos arregimentados, não existir união entre aldeias, pelas catequeses, pelas Missões que eram uma unidade de consumo, na qual o trabalho lhe pertencia; pela usurpação da terra por meio de sesmarias, pelas epidemias, pelas Guerras Justa e dos Bárbaros, pela escravização, pela servidão civil e por apadrinhamento”, diz Juarez Viana.

“Pelo apagamento da ancestralidade, com as mortes de pajés e feiticeiros; pelas invasões francesa, portuguesa, holandesa, retomada portuguesa; transferência do poder religioso e político para a Boca do Mato, atual Ceará-Mirim; distribuição política das terras; pela liberdade e Diretório dos Índios”, prossegue o pesquisador. 

O motivador, conta ele, foi “o poder do mais instruído” do “homem de bem”, alimentado pela ideia de que o indígena vivia na pré-história, sem lei, rei e religião.

Saiba Mais: Diversidade indígena cresce no RN: Censo 2022 identifica 88 etnias e 33 línguas

“Portanto, esses e outros não listados foram a razão para o apagamento, mas isso não quer dizer que não existam indígenas. Eles foram miscigenados ou, como diz Jussara Sales, procuraram locais de refúgios, além de utilizar da morte como resistência”, explica.

“Extremoz: silêncio índigena” pode ser adquirido diretamente com o autor, pelo telefone (84) 98812-1661 ou pelo Instagram @juarezvianadasilva. A obra também está presente em Natal no Sebo Vermelho, na Cidade Alta, e em Extremoz no Sebo Menino do Grude.

Fonte: saibamais.jor.br

Montagem rompe paradigmas com mulher trans vivendo Maria na Paixão de Cristo

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Montagem rompe paradigmas com mulher trans vivendo Maria na Paixão de Cristo
Foto: Lenilton Lima

Um dos espetáculos mais tradicionais da Semana Santa no Rio Grande do Norte, “A Paixão de Cristo” do Grupo de Teatro União (Gruteu), fundado há mais de 40 anos em São Gonçalo do Amarante, chega à edição deste ano reafirmando uma marca que acompanha sua trajetória: a quebra de paradigmas. Em 2026, o grupo dá mais um passo nesse caminho ao escalar a atriz trans Rebecka de França para interpretar Maria, mãe de Jesus — uma das figuras centrais da fé cristã.

O Gruteu construiu uma história ligada ao teatro sacro, mas também à inovação. Ao longo das décadas, o grupo não apenas manteve viva a tradição das encenações da Paixão de Cristo, como também passou a revisitar o texto bíblico a partir de novas perspectivas.

“Trabalhamos com um texto milenar, mas sempre buscamos atualizá-lo, trazendo leituras contemporâneas”, explica o diretor, dramaturgo e produtor cultural Jota França.

Foto: Lenilton Lima

Essa atualização não se limita à dramaturgia. Ela também se expressa nas escolhas de elenco e nas temáticas abordadas. De acordo com Jota França, a proposta de romper padrões acompanha o grupo há décadas.

“Fomos o primeiro grupo a colocar um Cristo negro em cena, ainda no fim dos anos 1980. Na época, isso gerou muita polêmica, saiu em jornal. Hoje é mais comum, mas naquele momento foi uma ruptura importante”, relembra.

Além de Rebecka, o espetáculo conta neste ano com a participação de mais seis mulheres trans. Foto: Lenilton Lima

Mais recentemente, o grupo também passou a incluir pessoas trans em seus espetáculos. A pioneira foi a atriz Amanda Ramos, natural de São Gonçalo do Amarante, que integrou o elenco a partir de 2022.

Desde então, a presença de artistas trans se consolidou dentro do grupo. Neste ano, são seis mulheres trans no elenco — e uma delas ocupa, pela primeira vez, o papel de Maria.

“Quando pensamos em Rebecka, pensamos primeiro na atriz, no talento dela. Essa foi a prioridade”, afirma Jota França. “A gente sabe que pode gerar debate, mas a arte é para todos. É um espaço de inclusão e de humanização.”

Entre a fé, a arte e o medo

Para Rebecka de França, o convite para interpretar Maria veio como surpresa — e também como desafio. Após iniciar sua transição ainda na adolescência, ela acabou se afastando dos palcos e passou a atuar mais nos bastidores, como produtora cultural.

“Quando surgiu o convite, eu nem acreditei. Não é comum ver pessoas trans em papéis de protagonismo, ainda mais em um espetáculo como esse”, conta.

Ela lembra que, até poucos anos, corpos trans tinham espaço “limitador e excludente” e recebiam “os piores papéis” – isso quando eram escalados. Ela celebrou o fato de o Gruteu dado espaço para “a atuação icônica de seis pessoas trans”.

Foto: Lenilton Lima

Antes de aceitar dar vida à personagem, Rebecka buscou ouvir pessoas próximas, especialmente religiosas, para medir possíveis reações.

“Fiquei com medo de ser interpretado como uma blasfêmia, quando, na verdade, é uma homenagem. Eu rezei pedindo permissão para fazer esse papel”, relata.

Em publicação nas redes sociais, ela contou que “pediu permissão em oração” para interpretar o papel de Maria, a quem chamou de “uma das mulheres mais importantes e maravilhosas que já passaram por nosso planeta”.

A preocupação não é infundada. Em um contexto em que debates sobre gênero e religião frequentemente geram tensões, Rebecka reconhece o receio de rejeição.

Foto: Lenilton Lima

“A gente vive em um mundo em que tudo pode virar motivo de ataque. Eu ainda tenho medo, não vou mentir. Mas estou enfrentando esse medo”, afirma.

Apesar disso, a atriz também destaca o acolhimento dentro do grupo e a recepção positiva do público nas primeiras apresentações.

“Disseram que foi emocionante, que as pessoas ficaram tocadas. Para mim, isso já é muito importante. É sinal de que consegui transmitir o que Maria representa.”

Um espetáculo sob novas perspectivas

Foto: Lenilton Lima

A montagem deste ano, intitulada “A Paixão de Cristo – Presença”, segue a linha de releituras adotada pelo Gruteu nos últimos anos.

O espetáculo é uma adaptação de “Raboni”, texto anterior de Jota França. A encenação deste ano traz a narrativa a partir da ótica das testemunhas da ressurreição — especialmente mulheres e discípulos que permaneceram ao lado de Jesus.

A escolha dialoga com uma proposta mais ampla de dar visibilidade a personagens historicamente secundarizados nas narrativas tradicionais.

Em 2025, por exemplo, o grupo já havia colocado Maria Madalena no centro da história. Agora, o protagonismo simbólico de Maria ganha uma nova camada de significado com a interpretação de uma mulher trans.

Para o diretor, essas escolhas não descaracterizam o conteúdo religioso, mas ampliam suas possibilidades de leitura.

“A gente mantém os elementos essenciais da história, mas traz uma repaginada, uma reflexão. A arte também serve para provocar, para fazer pensar”, defende.

Tradição itinerante e resistência cultural

Foto: Lenilton Lima

Além das inovações, o grupo mantém outra característica marcante: a itinerância. Diferente de muitas encenações que se concentram em um único espaço, o grupo percorre diferentes cidades durante a Semana Santa, levando o espetáculo a diversos públicos do Rio Grande do Norte.

Neste ano, a turnê inclui apresentações em São Gonçalo do Amarante, Macaíba e São Pedro. A estreia aconteceu na última terça-feira (31), no Santuário Dos Mártires de Uruaçu.

A última encenação será no Domingo de Páscoa (5), no Parque das Fontes, no Centro de São Gonçalo do Amarante. Ao todo, cerca de 86 pessoas estão envolvidas na produção, entre elenco e equipe técnica.

Manter uma estrutura desse porte, no entanto, não é simples. O financiamento depende da venda de apresentações para prefeituras, além de editais e leis de incentivo.

“Fazer cultura no Brasil ainda é um ato de resistência. Apesar dos avanços, as dificuldades continuam”, afirma Jota.

Ainda assim, é justamente essa combinação entre tradição e ousadia que ajuda a explicar a longevidade do Gruteu. Nascido no fim dos anos 1970, dentro da paróquia de São Gonçalo do Amarante, através da influência da congregação de freiras “Filhas do Amor Divino”, o grupo se tornou independente ao longo do tempo, sem perder o vínculo com o teatro sacro.

O grupo está inserido em uma tradição mais ampla do município, que o próprio diretor Jota França define como “Cidade das Paixões”. O título faz referência à forte presença de grupos teatrais dedicados à encenação da Paixão de Cristo em São Gonçalo do Amarante, que já chegou a reunir mais de dez coletivos atuando simultaneamente.

Atualmente, quatro grupos mantêm essa tradição viva no município, com montagens anuais durante a Semana Santa. O Gruteu se destaca nesse contexto não apenas pela longevidade, mas também pela proposta itinerante e pelas inovações que introduz a cada nova montagem.

Hoje, ao apostar em uma leitura mais inclusiva e diversa da Paixão de Cristo, o grupo reafirma seu papel não apenas como guardião de uma tradição, mas como agente de transformação social.

Para Rebecka, que além de atriz é dançarina, professora mestra em Geografia e coordenadora de Diversidade Sexual e Gênero da Secretaria Estadual de Mulheres, Juventude, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Semjidh), essa oportunidade carrega um significado que vai além do palco.

“Durante muito tempo, vimos pessoas cis interpretando personagens trans. Agora, também é importante que a gente ocupe outros espaços. Estar ali, vivendo o papel de Maria, é uma forma de mostrar que a gente também pode”, diz.

Entre a emoção da cena e a tensão fora dela, a atriz resume o momento com sinceridade: “É com medo mesmo. Mas é também com coragem.”

Fonte: saibamais.jor.br

A internacional da extrema direita e a Conferência Antifascista pela Soberania dos Povos

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A internacional da extrema direita e a Conferência Antifascista pela Soberania dos Povos

Entre os dias 25 e 28 de março de 2026, foi realizado, em Dallas, Texas (EUA), mais um encontro da Conferência da Ação Política Conservadora (CPAC), organização criada em 1974 nos Estados Unidos e que se consolidou como o principal espaço de articulação da extrema direita em escala global. O evento constitui um importante eixo de articulação internacional, reunindo ativistas, empresários e lideranças políticas não apenas dos Estados Unidos, mas também de diversos países.

A edição deste ano contou com uma programação extensa e com a participação de representantes de países como Japão, Canadá, Reino Unido, Bósnia e Herzegovina, Austrália, Itália, Polônia, Alemanha, Romênia, Coreia do Sul e Brasil, evidenciando o caráter transnacional do movimento.

Entre os participantes brasileiros, destacaram-se os irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro, responsável pela criação da CPAC no Brasil em 2019, durante o primeiro ano do mandato de seu pai na presidência da República, participou como palestrante. Apresentado como Congressman in exile, discursou na sessão intitulada “Este é para George Soros”, realizada em 27 de março de 2026. Diferentemente de edições anteriores, dividiu o espaço com outros participantes, como o presidente da CPAC, Matt Schlapp – que esteve no Brasil em 2024, durante a realização do evento em Balneário Camboriú (SC) e depois disse absurdos infundados como o de ter visto nos livros didáticos que “crianças com 9 anos aprendem que podem ser ativos sexualmente a trocar de gênero”- além de representantes da Hungria, do Reino Unido (Liz Truss) e do Japão (Jay Aeba).

Em seu discurso, Eduardo Bolsonaro afirmou que, caso seu irmão seja eleito e sua base política alcance maioria no Senado, haveria o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. Também declarou a intenção de processá-lo “pela prisão do pai, pelos crimes que ele cometeu e por ter me processado por crimes que não cometi”e afirmou não temer o magistrado, e que “vamos vencer as eleições, perdoar Jai Bolsonaro e os Estados Unidos vai ter seu maior aluado no ano que vem”, vinculando essas ações a uma eventual vitória eleitoral do seu irmão.

Lembrando que ele foi um dos principais defensores das taxações dos Estados Unidos ao Brasil, bem como de sanções ao ministro Alexandre de Moraes, o que reforça sua atuação alinhada aos interesses norte-americanos no país.

No caso de Flávio Bolsonaro, sua participação ocorreu em 28 de março. Em seu discurso, estabeleceu uma comparação entre seu pai e Donald Trump, defendeu ainda os Estados Unidos “monitorem a liberdade de expressão” nas eleições brasileiras e sugeriu a necessidade de “pressão diplomática” para assegurar um processo eleitoral “livre e justo”, que no Brasil tenham “valores de origem americaa”. Segundo ele, a vitória eleitoral dependeria da liberdade de expressão nas redes sociais e da correta apuração dos votos.

Essas declarações foram alvo de críticas. Em editorial publicado em 31 de março de 2026, o jornal O Estado de S. Paulo afirmou que tais posicionamentos indicam uma continuidade do chamado “golpismo bolsonarista”, destacando a tentativa de condicionar a legitimidade do processo eleitoral ao resultado favorável ao próprio grupo político. O editorial também registra ataques ao presidente Lula e afirma: “Como de hábito, nenhuma prova disso foi apresentada – mas, afinal, um bolsonarista de verdade não precisa de provas para acreditar em teorias da conspiração como essa”.

Outro ponto destacado é a “tentativa indecorosa de mobilizar o governo dos Estados Unidos e de outros países governados pela extrema direita simpatizante de Donald Trump para lançar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro e, eventualmente, não reconhecer uma derrota do bolsonarismo”.

Uma das afirmativas, também alvo de críticas no discurso de Flávio Bolsonaro foi a menção às chamadas “terras raras”. Ao afirmar que o Brasil poderia suprir a demanda dos Estados Unidos por esses recursos estratégicos, que não dependa da China em terras raras e minerais críticos e sugeriu, na prática, uma aproximação econômica que poderia implicar a subordinação de interesses do Brasil aos interesses dos Estados Unidos.

Essa posição foi criticada por membros do governo brasileiro. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que tal proposta representa a entrega de riquezas nacionais em troca de apoio político. Já a ministra das Relações Institucionais, chamou Flávio Bolsonaro de “vendilhão da pátria”, acusando ele e seu irmão de atuarem no exterior alinhados a interesses estrangeiros e portanto como posturas (e ações) contrárias aos interesses nacionais.

No mesmo discurso, Flávio Bolsonaro também afirmou que seu pai teria “lutado contra a tirania da Covid-19”. Que tirania? Essa interpretação contrasta com as conclusões da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, instalada em 2021, cujo relatório final apontou falhas graves na condução da pandemia pelo governo federal. Entre os aspectos a CPI teve como objetivo apurar as irregularidades em contratos, fraudes em licitações, superfaturamentos, desvios de recursos públicos, assinatura de contratos com empresas de fachada para prestação de serviços genéricos ou fictícios e o relatório final, com 1.287 páginas, afirma que “Especialistas internacionais concordam sobre o fracasso e a incapacidade do presidente brasileiro em lidar com a pandemia” e negligência na adoção de medidas sanitárias, a defesa de tratamentos sem comprovação científica, “a insistência no tratamento precoce em detrimento da vacinação aponta para o presidente da República como o principal responsável pelos erros cometidos durante a pandemia da covid-19 (…) desprezando qualquer alerta que se contra pudesse as suas ideias sem fundamento científico”, e além da resistência à vacinação, também a rejeição a orientações técnicas do Ministério da Saúde.

O relatório também enfatiza o papel da desinformação durante a pandemia, indicando que a disseminação de fake news contribuiu para a baixa adesão à vacinação e agravou os impactos da crise sanitária. Estima-se que mais de 750 mil pessoas tenham morrido no Brasil em decorrência da Covid-19, além de milhões de infectados. Nesse sentido, as fake news e desinformação tiveram um papel importante, resultando no fato de que milhões de pessoas não quiseram de vacinar (até hoje muitos continuam a questionar as vacinas).
Como consta no relatório final: “A veiculação de notícias falsas, as conhecidas fake news, contribuíram para que o objetivo negacionista fosse alcançado. Nesse ponto, a CPI apurou que não apenas houve omissão dos órgãos oficiais de comunicação, no combate aos boatos e à desinformação, como também existiu forte atuação da cúpula do governo, em especial do Presidente da República, no fomento à disseminação de fake news”.
Além disso, o discurso de Flávio Bolsonaro incluiu afirmações genéricas em relação ao governo do seu pai sobre o combate ao narcotráfico (Como? Com quem resultados?), à chamada “elite global” (Com se houvesse um combate a tais elites), contra a agenda ambiental radical (o que fez foi aumentar o desmatamento, proteção a garimpeiros, que, entre outros aspectos invadiram terras indígenas)e a uma suposta “agenda woke”, que destruiu famílias, sem apresentar evidências concretas ou dados que sustentassem tais alegações.

No plano internacional, o encontro da CPAC também revelou fissuras internas no campo da extrema direita. Um dos elementos mais significativos foi a ausência de Donald Trump, que participou das dez edições anteriores do evento e era esperado para fazer o discurso de encerramento. Tampouco participaram seu vice ou membros relevantes de sua equipe, além das críticas de integrantes do MAGA a guerra no Irã, o que pode indicar divisões no movimento.

E também revelou que há na sociedade resistência contra Donald Trump e a insanidade, dele e da injustificada guerra contra o Irã, com ataques, assassinatos (inclusive de crianças) e milhões de dólares em armamentos, além de ameaças a outros países, como Cuba. É nesse sentido, foram registradas manifestações de oposição nos Estados Unidos. No mesmo dia de encerramento da CPAC, 28 de março de 2026, ocorreram protestos em todos os 50 estados, reunindo milhões de pessoas contra o governo e contra ações militares no Irã. Essas mobilizações foram organizadas por uma ampla coalizão de entidades e expressaram insatisfação com políticas consideradas autoritárias e uma guerra insana, injustificada. Em um documento divulgado na imprensa afirma-se que “O povo americano está farto das usurpadora de poder deste governo, de uma guerra ilegal que nem o Congresso nem o povo aprovaram e das tentativas contínuas de restringir nossas liberdades”.

Como afirmou o senador Bernie Sanders em discurso em Minneapolis- onde ocorreu a principal manifestação no país – reforçou a crítica à concentração de poder econômico e político, associando-a à erosão democrática e ao aumento das desigualdades sociais. Em uma referência ao lema do movimento No Kings: disse “Chega de reis. Não permitiremos que este país mergulhe no autoritarismo ou na oligarquia. Na América, nós, o Povo, governaremos. Mas sejamos claros: este momento não se resume à ganância de um homem, à corrupção de um homem ou ao seu desprezo pela Constituição. Trata-se de um punhado das pessoas mais ricas da Terra que, em sua ganância insaciável, tomaram conta da nossa economia e do nosso sistema político e dos nossos meios de comunicação para se enriquecerem às custas das famílias trabalhadoras do nosso país”.

Em contraposição à articulação da extrema direita, realizou-se, em Porto Alegre (RS), a Conferência Antifascista e pela Soberania dos Povos, reunindo milhares de participantes de mais de quarenta países. O evento buscou fortalecer a cooperação internacional entre movimentos antifascistas e formular estratégias de resistência, “buscando avançar na organização para a resistência e o combate aos variados fascismos, a extrema direita e o imperialismo em sua fase mais agressiva”.

Como resultado, foi divulgada a chamada Carta de Porto Alegre, documento que denuncia o avanço da extrema direita global e associa esse fenômeno a uma crise estrutural do sistema capitalista. Segundo o texto, esse contexto tem favorecido o crescimento de políticas autoritárias, a redução de direitos sociais e o fortalecimento de práticas discriminatórias.

O documento também destaca que, embora as manifestações da extrema direita assumam características específicas em cada país, há elementos comuns, como o ataque às instituições democráticas, a precarização do trabalho, o enfraquecimento das políticas públicas e a disseminação do negacionismo científico e climático.

Dessa forma, observa-se que, enquanto a extrema direita se organiza internacionalmente- como evidenciado pelo encontro da CPAC -, e o fato de partidos de extrema direita liderarem governos da Polônia, Itália, Israel, Hungria e Turquia, assim como o crescimento da extrema direita na Finlândia, Alemanha, Espanha, Suécia, França, Grécia, Holanda, Portugal e Espanha e presidentes de extrema direita nos Estados Unidos (Donald Trump), El Salvador (Nayib Bukele) e Argentina (Javier Milei), entre outros exemplos – também se intensificam os movimentos de resistência.

No Brasil, as eleições de outubro de 2026 assumem papel central nesse cenário, decisivas para o enfrentamento do neofascismo e suas expressões nacionais.

A Carta de Porto Alegre se refere a várias manifestações de resistência a extrema direita, como as que ocorreram na Argentina nos 50 anos do golpe militar (1976-1983, país que teve uma das ditaduras mais sanguinárias da América do Sul e como escreveu o jornalista Mário Resende correspondente do jornal Expresso, de Portugal, no dia 28 de março ao registrar milhões de pessoas nas ruas: “Milei bloqueia o acesso aos arquivos, desmantela políticas públicas que permitem justiça e promove uma reinterpretação dos fatos”, no Reino Unido e a grande e histórica manifestações nos Estados Unidos no dia 28 de março de 2026, cujo lema é “não há reis na América” e afirma Donald Trump ser inimigo da humanidade.

A Carta conclui reafirmando que “a Conferência Antifascista e pela Soberania dos Povos, compromete-se a lutar sem descanso e como espaço de construção de unidades contra a ascensão da extrema direita e as agressões imperialistas. Diante da barbárie, levantamos a bandeira da solidariedade internacional, da luta dos povos e de um futuro socialista, ecológico, democrático, feminista e antirracista”.

Fonte: saibamais.jor.br

Os perigos do inferno do igual

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Os perigos do inferno do igual

Nascido em Seul, na Coreia do Sul, Byung-Chul Han iniciou seus estudos em Metalurgia. O apreço pela literatura, porém, o conduziu à Alemanha. Segundo ele próprio, a dificuldade com o idioma foi decisiva para deslocar seu interesse da literatura para a filosofia.

Sua chegada ao país europeu foi marcada por privações financeiras que comprometiam, inclusive, a segurança alimentar. Ainda assim, em meio às adversidades, concluiu formação em Filosofia na Universidade de Freiburg e em Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Em 1994, obteve o doutorado com uma tese sobre Martin Heidegger.

Em sua obra, percebe-se uma sensibilidade singular para as manifestações estéticas. São numerosas as referências às artes visuais, ao cinema, à literatura e à música clássica. Diz-se, inclusive, que recita Goethe de memória. Sua produção atravessa várias áreas do saber, entrelaçando filosofia antiga, psicanálise, análise das mídias e espiritualidade. As múltiplas dimensões da vida humana interessam ao pensador. Sobre isto, a professora Paula Sibilia o definiu como um “agudo decifrador das calamidades do presente”.

Trata-se, portanto, de um intérprete contundente dos males que atravessam a sociedade atual. O inferno do igual, a expulsão do diferente, a sociedade do desempenho, a fabricação de si e o excesso de positividade compõem parte importante de seu universo teórico. Convém lembrar, ainda, que possui mais de vinte livros publicados, traduzidos em diversos idiomas, o que evidencia a ampla repercussão internacional de sua reflexão.

Também o formato de seus livros chama atenção no cenário editorial: são obras curtas, de preços mais acessíveis, com espaços em branco, tipografia confortável e títulos de grande força evocativa. Soma-se a isso um estilo de frases curtas, que se priva de muitas explicações se ocupando de provocações para o pensamento. Suas críticas a outros teóricos são, por vezes, impiedosas; ao mesmo tempo, demonstra com nitidez suas filiações intelectuais e mobiliza elementos do cotidiano, produzindo no leitor e na leitora um impacto profundo de reconhecimento.

Suas teorias são construídas em diálogo com múltiplas expressões da linguagem artística. Um dos livros de que mais gosto é Agonia do Eros, publicado em Berlim em 2012 e lançado no Brasil em 2017. A obra está estruturada em sete capítulos. Válido um passeio sobre os aspectos que desassossegam o eros.

Logo de início, o filósofo ressignifica o amor na contemporaneidade ao afirmar que “num mundo de possibilidades ilimitadas, o amor não tem vez”. A provocação é incisiva: apesar da multiplicação das possibilidades, o que mais sufoca o amor é a erosão do outro, fenômeno que atravessa todos os âmbitos da vida e caminha lado a lado com a narcisificação do si mesmo.

Fiel ao seu estilo enxuto, ele sustenta que, numa sociedade cada vez mais narcísica, a libido passa a ser investida primordialmente na própria subjetividade. O sujeito narcísico, nessa formulação, já não consegue estabelecer claramente seus limites. Desaparecem as fronteiras entre ele e o outro, porque o mundo passa a se afigurar como projeção sombreada de si mesmo. Incapaz de perceber a alteridade em sua diferença, só encontra significação onde consegue reconhecer, de algum modo, a si próprio. É um movimento de vaguear nas próprias sombras até afogar-se em si.

É nesse ponto que Eros assume centralidade: arranca o sujeito de si mesmo e o direciona ao outro. O eros torna possível uma experiência com a alteridade, resgatando o indivíduo de seu inferno narcísico. No inferno do igual, a chegada do outro atópico pode adquirir feição quase apocalíptica. Ao analisar o filme Melancolia, de Lars Von Trier, o ensaísta mostra justamente isso: eros vence a depressão, pois a protagonista Justine, em estado depressivo, transmuta-se em uma pessoa amorosa e amante.

Agonia do Eros é ainda mais bem compreendido por quem já leu Sociedade do Cansaço, porque diversos conceitos fundamentais são retomados ali. O teórico recupera a ideia de que a sociedade do desempenho é inteiramente dominada pelo verbo modal poder, em contraposição à sociedade disciplinar, que opera pela proibição e pela conjugação do verbo dever.

Sua tese é clara: a partir de determinado patamar de produtividade, o dever choca-se com seus próprios limites; para elevar ainda mais a produtividade, ele é substituído pelo poder. O apelo à motivação, à iniciativa e ao projeto revela-se mais eficiente para a exploração do que o chicote e as ordens. Assim, o “tu podes” gera mais coerções do que o “tu deves”. Aí está o núcleo da formulação sobre a sociedade do desempenho, conceito decisivo para compreender o cansaço contemporâneo.

Por trás da aparente liberdade individual, o regime neoliberal oculta uma estrutura coercitiva. O indivíduo deixa de compreender a si mesmo como sujeito submisso e passa a se perceber como projeto lançado. Nisso reside sua astúcia. Quem fracassa, além de tudo, é responsabilizado pelo próprio fracasso. A ruptura do vínculo com a alteridade cria as condições para a crise da culpa e da gratificação.

O pensador sul-coreano insiste, com veemência, que o capitalismo não é uma religião. Toda religião opera com culpa e desculpa; o capitalismo, ao contrário, apenas inculpa. Inexiste oferta de qualquer meio de expiação capaz de livrar o culpado de sua culpa. A impossibilidade de de expiação também está, para ele, na base da depressão do sujeito de desempenho.

Nessa chave, depressão e burnout representam uma insolvência psíquica: a impossibilidade de liquidar a dívida e a culpa. Em sua leitura, o amor se positiva em sexualidade, igualmente submetida à ditadura do desempenho. Sexo é desempenho. Sensualidade converte-se em capital a ser multiplicado.

O corpo, com seu valor expositivo, equipara-se a uma mercadoria. E a conclusão é dura: não se pode amar o outro quando dele se retirou a alteridade; nesse caso, só resta consumi-lo. Para Han, o amor, então, é positivado numa fórmula de fruição, de aproveitamento, e passa a ter de gerar sentimentos agradáveis.

Uma sociedade do desempenho, dominada pelo poder, em que tudo é iniciativa, projeto e possibilidade, perde o acesso ao amor enquanto vulnerabilidade e paixão. O princípio do desempenho, que hoje invade todos os âmbitos da vida, alcança também o amor e a sexualidade. O filósofo cita, como exemplo, o romance Cinquenta Tons de Cinza, no qual os protagonistas firmam um contrato.

Prossegue o autor de Agonia do Eros: o amor desapropria as pessoas de sua própria natureza e as transfere para uma natureza estranha. É nessa transformação, e nessa vulneração, que reside sua negatividade, que se perde com a crescente positivação e domesticação da experiência amorosa. Assim, permanecemos iguais, e no outro busca-se apenas a confirmação de si mesmo.

Desse modo, a ausência total de negatividade converte o amor em objeto de consumo e o reduz ao cálculo hedonista. A volúpia do outro cede lugar ao conforto do igual.

Prossegue Han afirmando que o capitalismo, em sua análise, absolutiza o mero viver. O bem viver não constitui seu telos, sua finalidade. A preocupação exclusiva com a sobrevivência retira a vivacidade da existência. Aquilo que apenas sobrevive se assemelha a um morto-vivo: demasiado morto para viver, demasiado vivo para morrer.

Nessa perspectiva, o neoliberalismo, com seus impulsos do eu e seus desempenhos desenfreados, configura uma ordem social da qual o eros desapareceu quase por completo. Afirma que as cercas divisórias e os muros erguidos em nosso tempo já não mobilizam fantasias, porque não produzem o outro. Ao contrário, apenas reiteram o inferno do igual, obedecendo às leis econômicas. Separam ricos e pobres. O que produz esses novos limites é o capital.

Sua reflexão alcança também a política. Ao tratar de uma política do eros, sustenta que a alma impulsionada por eros produz coisas e ações belas dotadas de valor universal. Explica, com base em Platão, que o eros dirige a alma e exerce poder sobre todas as suas partes: cupidez (epithymia), coragem (thymos) e razão (logos).

Daí decorre a necessidade de reerotizar a política. Na sociedade do cansaço, formada por sujeitos de desempenho isolados em si mesmos, também o thymos, a coragem, começa a atrofiar. Torna-se impossível um agir comum, universal, um agir em nós.

O teórico assinala que a ação política, enquanto cupidez comum por outra forma de vida e por outro mundo mais justo, guarda relação direta com o eros. Há, portanto, uma força universal nessa experiência, capaz de interligar o artístico, o existencial e o político. O eros manifesta-se como cupidez revolucionária por uma forma de vida e de sociedade inteiramente distinta.

Sua conclusão é poderosa: o pensamento só se eleva verdadeiramente a partir do eros. Sem eros, o pensamento perde vitalidade. Em sua formulação, pensar é logos mais eros. Diante da agonia do eros, o pensamento perde também seu poder transformador.

Tais reflexões nos convocam a insurgir contra o inferno do igual, que se revela em padrões rígidos de comportamento, no fanatismo por times, partidos e religiões, em modos semelhantes de existência, de ideias e de pensamento, bem como no conforto de ver e ouvir somente aquilo que confirma nossas crenças, opiniões e visões de mundo.

Convocam-nos, igualmente, a uma autoavaliação sempre que permitimos a erosão do outro, processo que repele o eros, enfraquece os vínculos e nos distancia do reconhecimento da diversidade como valor essencial para a melhora do mundo, da vida, dos afetos, dos laços de amizade e dos amores. Afinal, “quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém”, como afirmaram Vinicius de Moraes e Baden Powell, em Berimbau (1963).

Fonte: saibamais.jor.br