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Animação “Kayara” disputa prêmio Platino com jornada de heroína inca

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© Prêmios Platino Xcaret/Divulgação

No Peru pré-hispânico, uma adolescente de 16 anos desafia tradições e sonha em se juntar a um seleto grupo de homens mensageiros de seu povo. Com ajuda de seu porquinho-da-índia e dos espíritos das montanhas, Kayara luta contra expectativas, vence obstáculos e prova que merece um lugar no coração do Império Inca.

A animação 3D Kayara: a princesa Inca é uma amostra da qualidade de animações infanto-juvenis latino-americanas e referência para pais que buscam outros modelos de princesa, mais próximos dos Andes do que de terras nórdicas, segundo especialistas.

O longa infantil, que estreou no Brasil em 2025 é já está nas plataformas comerciais, concorre ao Prêmio Platino de Animação, o Oscar do cinema ibero-americano. Os vencedores serão anunciados em 9 de maio, no México. 

>> Debate sobre democracia no cinema latino-americano reflete tensões

>> Filmes dirigidos por mulheres são favoritos em prêmio ibero-americano

Kayara é um filme de destaque por valorizar a paisagem latina e por trabalhar tradições e costumes das civilizações pré-colombianas com as infâncias, avalia o diretor-executivo do Midiativa, Daniel Carmona Leite. A associação dirigida por ele criou o selo comKids para valorizar o audiovisual infantil e infanto-juvenil ibero-americano.

“É importante criarmos nossas crianças assistindo a filmes que tenham como cenário e como ambientação a nossa região”, disse Daniel. “Isso faz com que elas valorizem a própria cultura e não somente idealizem a de outras regiões”, analisa.

Segundo Leite, faltam nas telas brasileiras paisagens latinas e, ainda, africanas, considerando a formação de metade da população brasileira, que descende da migração forçada vinda da África.

O especialista também destaca como positivo o filme Kayara ser uma produção entre Peru e Espanha, o que “desenvolve obras audiovisuais competitivas”, em um contexto de competição, como o da animação.

Ele também sugere ações de fomento para obras infantis e infanto-juvenis de forma sustentada, apesar de já existirem bons conteúdos. No Brasil, ele cita o filme Tarsilinha e produções ligadas à Turma da Mônica

Quebra de padrões

Na animação que concorre ao Platino, Kayara tem uma grande habilidade: correr. Ela sonha em assumir uma posição de “chasqui”, que são os mensageiros do Império Inca, um grande Estado multiétnico, que ia do Peru até a atual Argentina, cortando os Andes.

Porém, o posto era reservado aos homens e a jovem precisava fazer a tradição ser revista.

A personagem rompe com papéis determinados às mulheres na civilização Inca, e a maneira resiliente como ela é construída também é positivo, avalia a professora de cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF) Marina Tedesco. 

Especialista em cinema latino, ela revelou que, quando criança, gostaria de ter visto o longa. “A minha geração cresceu tendo como referência apenas animações estadunidenses”, protestou.

Apesar dos elogios, ela reconhece que, como um filme comercial, feito para um grande público internacional, Kayara tem “limitações estéticas”.

Kayara encontra boa acolhida no público porque, por exemplo, o tamanho dos olhos, a proporção de cabeça e corpo, dialogam com algo (personagens) que são conhecidos”, explicou. “Não vejo nenhum problema nisso quando se pretende fazer um filme para o grande público, porque, se nós ignoramos o repertório visual e audiovisual das pessoas, não conseguimos nos comunicar”.

Outros indicados

Na premição ibero-americana, Kayara disputa o troféu com o primeio stop-motion mexicano de fantasia sombria Eu Sou Frankelda, um infanto-juvenil que acompanha as aventuras de uma criativa jovem escritora fantasma, que se originou de uma série de TV.

Os demais indicados ao Platino de Animação são filmes adultos. Entre eles está Olívia e as Nuvens, um drama poético da República Dominicana que discute a complexidade do amor. Outro concorrente é Decorado, filme espanhol, de humor ácido, no qual um rato de meia idade está em crise existencial. Os dois longas ganharam competições nacionais.

 


Brasília (DF), 23/04/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Cena do filme Olivia e Las Nubes. Foto: Prêmios Platino Xcaret/Divulgação
Brasília (DF), 23/04/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Cena do filme Olivia e Las Nubes. Foto: Prêmios Platino Xcaret/Divulgação

Cena do filme Olivia e as Nuvens. Foto: Prêmios Platino Xcaret/Divulgação

 

Fonte: Agência Brasil de Noticias

Começam a valer penas maiores para furto, roubo e receptação

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© Fernando Frazão/Agência Brasil

A partir desta segunda-feira (4) crimes de furto, roubo e receptação terão penas maiores. A Lei 15.397/2026, publicada no Diário Oficial da União, amplia ainda a punição para casos de estelionato e crimes virtuais, como golpes pela internet.

O texto aprovado estabelece as seguintes penas de reclusão:

  • furto: de um a seis anos de reclusão (o máximo era 4 anos);
  • furto de celular: de quatro a dez (até então, eram tratados como furto simples);
  • furto por meio eletrônico: até dez anos (eram oito anos);
  • roubo que resulta em morte: pena mínima passa de 20 para 24 anos;
  • estelionato, reclusão de um a cinco anos mais multa;
  • receptação de produto roubado de dois a seis anos de prisão e multa (era de um a quatro anos).

O texto trata ainda de pena por interromper serviço telefônico, telegráfico ou radiotelegráfico, atualmente de detenção de 1 a 3 anos, será de reclusão de 2 a 4 anos.

A pena será aplicada em dobro se o crime for cometido por ocasião de calamidade pública ou roubo ou destruição de equipamento instalado em torres de telecomunicação.

Fonte: Agência Brasil de Noticias

Programa Antes que Aconteça quer ampliar rede de proteção à mulher

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© Rovena Rosa/Agência Brasil

Para ampliar a rede nacional de prevenção e apoio a mulheres vítimas de violência, começa a valer nesta segunda-feira (4) o Programa Antes que Aconteça.

O texto, publicado na edição de hoje do Diário Oficial da União, prevê a instalação das Salas Lilás – espaços humanizados em órgãos públicos e instituições de segurança, como delegacias, destinados ao acolhimento de mulheres e meninas em situação de violência.

São objetivos do programa:

  • reduzir os índices de feminicídio e de violência doméstica e familiar;
  • fortalecer a rede de atendimento, enfrentamento e proteção às mulheres;
  • promover a autonomia econômica e o empreendedorismo feminino;
  • educar e conscientizar a sociedade sobre a igualdade entre homens e mulheres, com foco no ambiente escolar.

Além disso, as casas abrigo serão ampliadas. Esses espaços temporários destinados a mulheres e seus dependentes em situação de risco iminente terão o número ampliado.

Outra iniciativa prevista no projeto é a prestação de serviços itinerantes em unidades móveis e vans, com oferta de atendimento psicológico, jurídico e social gratuito em locais de difícil acesso, escolas e comunidades.

O Programa Antes que Aconteça é resultado de atuação conjunta da Bancada Feminina do Congresso Nacional, do Ministério da Justiça e Segurança Pública e dos Conselhos Nacionais de Justiça e do Ministério Público.

Em 2025, o Brasil atingiu recorde de feminicídios. Foram quatro mortes por dia. No total, o país registrou 1.518 vítimas no ano passado.

Fonte: Agência Brasil de Noticias

Instalação de empreendimento pode afetar manguezal em Galinhos

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Instalação de empreendimento pode afetar manguezal em Galinhos

Em Galinhos, município a cerca de 160 quilômetros de Natal, uma área de manguezal pode estar sendo ameaçada pela instalação de um projeto para produção de hidrogênio sustentável e amônia verde. Denúncias foram feitas ao Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (Idema), que prometeu averiguar e verificar o cumprimento das condicionantes estabelecidas na licença ambiental em vigor.

A obra é da Atlântico Empreendimentos Imobiliários. O empreendimento está sendo instalado na Ilha do Pisa Sal. A denúncia sobre os possíveis impactos foi feita por um pesquisador do Movimento de Atingidos pelas Renováveis (MAR), que por razões de segurança preferiu não se identificar. Ele diz que vem acompanhando as mudanças no local há dois anos por meio de drones e tecnologia de geoprocessamento, e teme danos ao berçário do mar que sustenta comunidades pesqueiras na região. Outra denúncia também foi feita ao Ministério Público Federal (MPF) e aguarda análise.

“A supressão do manguezal para a construção da usina de hidrogênio na Ilha Pisa Sal representa um dano ambiental grave e multifacetado, devido à destruição de um ecossistema vital e protegido por lei”, afirma.

De acordo com o pesquisador do MAR, a retirada da vegetação de mangue tem comprometido o ecossistema e resultado na perda do “berçário natural” de inúmeras espécies de peixes, crustáceos e moluscos, afetando diretamente a biodiversidade marinha e a pesca local. A pesca em municípios próximos, como Guamaré e Caiçara do Norte, também poderia ser afetada, segundo ele.

“Do ponto de vista climático, o dano é ainda mais alarmante: os manguezais são sumidouros de carbono azul, armazenando até quatro vezes mais carbono do que outras florestas terrestres. A sua supressão, portanto, libera grandes quantidades de gases de efeito estufa e elimina um importante aliado contra as mudanças climáticas”, aponta.

Segundo o pesquisador, a supressão, tecnicamente, viola o Código Florestal brasileiro, que classifica os manguezais, em toda a sua extensão, como Área de Preservação Permanente (APP). 

“Por serem APPs, esses ecossistemas são considerados intocáveis, e a sua supressão de vegetação nativa só é admitida por lei em casos excepcionalíssimos de utilidade pública, interesse social ou baixo impacto, mediante licenciamento ambiental e desde que comprovada a inexistência de alternativa técnica e locacional ao empreendimento”, explica.

“Qualquer supressão fora dessas condições configura crime ambiental, conforme a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), sujeitando os responsáveis a penas de detenção e multa”, continua.

Comunidade pede explicações

Uma das possíveis afetadas é a Colônia de Pescadores Z-30 de Galinhos. Em 18 de março, a presidente da entidade, Rosângela da Silva, enviou uma solicitação à Prefeitura do município pedindo mais informações sobre o empreendimento com base na Lei de Acesso à Informação. Os questionamentos presentes no documento são:

1. Existe, atualmente, algum projeto, estudo, ou empreendimento relacionado à implantação de usinas de geração de energia, especialmente na área de hidrogênio verde (H2V), em fase de planejamento, licenciamento ou autorização para ser instalado no município de Galinhos/RN? 

2. Em caso positivo, informar qual o estágio atual de tal empreendimento (ex: projeto preliminar, requerimento de licença prévia, licença de instalação etc.) e, se já houver, o número do respectivo processo administrativo para consulta pública. 

3. Existe algum protocolo ou licenciamento ambiental em trâmite no município, ou em parceria com o Governo do Estado do Rio Grande do Norte, para este fim? 

4. Houve ou está programada alguma reunião com a população de Galinhos para discutir esse assunto? 

A Lei de Acesso à Informação determina que órgãos públicos devem responder a pedidos de informação imediatamente ou em até 20 dias, prorrogáveis por mais 10 dias com justificativa. Recursos devem ser apresentados em até 10 dias após a resposta. Passado mais de um mês, as respostas ainda não chegaram.

Procurada, a Prefeitura de Galinhos informou que não foi formalmente comunicada sobre o empreendimento e não há licença ambiental emitida por parte do município para tal. Já o Idema disse que o empreendimento possui licença ambiental válida para a execução das atividades autorizadas e afirmou que tomou conhecimento de denúncias relacionadas a possíveis intervenções em área de manguezal. 

“Diante disso, uma equipe de fiscalização será encaminhada ao local para averiguar os fatos e verificar o cumprimento das condicionantes estabelecidas na licença ambiental em vigor”, disse o órgão na terça-feira (28), quando consultado pela reportagem.

Caso sejam constatadas irregularidades, segundo o Idema, as medidas administrativas cabíveis serão adotadas, de acordo com a legislação ambiental vigente.

“O Idema reforça seu compromisso com a proteção dos ecossistemas costeiros e com a rigorosa fiscalização das atividades potencialmente impactantes ao meio ambiente”, disse o Instituto.

Fonte: saibamais.jor.br

África: cerco à capital do Mali desafia Aliança de Estados do Sahel  

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© Reuters/Stringer/Proibida reprodução

O cerco à capital do Mali, Bamako, por grupos jihadistas, entre eles um ligado à Al-Qaeda, ameaça a estabilidade da Aliança dos Estados do Sahel (AES), grupo formado também por Níger e Burkina Faso. O Sahel é a região que separa o deserto do Saara das florestas tropicais da África subsaariana.   

Tal aliança foi formada após golpes militares que colocaram no poder governos considerados nacionalistas com apoio popular. A partir de 2020, eles iniciaram um processo de transformação institucional, política e econômica que tem afastado esses países da influência da França, antiga colonizadora dessa região da África ocidental.   

No último dia 25 de abril, em ataques coordenados de amplo alcance, o Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM) e a Frente de Libertação do Azaward (FLA) conseguiram tomar cidades e territórios do Mali, incluindo a importante cidade de Kidal, levando ao assassinato do ministro da Defesa do país, Sadio Camara.  

Esses grupos considerados terroristas teriam montado barreiras no acesso à capital do Mali para forçar uma rendição do governo do Assimi Goïta.  


A framed portrait and the coffin of Malian Defence Minister Sadio Camara, who was killed in a militant attack, are displayed on the day of his state funeral, in Bamako, Mali, April 30, 2026.   Mali Presidency via Facebook /Handout via REUTERS    THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY. NO RESALES. NO ARCHIVES. MANDATORY CREDIT. VERIFICTION: Reuters was not able to verify the location where the pictures were taken, however, Mali Presidency said in a statement that the ceremony took place on the parade ground of the 34th Military Engineering Regiment in Bamako. The date was confirmed by corroborating media and government reports. No old reports were found posted online before April 30.
A framed portrait and the coffin of Malian Defence Minister Sadio Camara, who was killed in a militant attack, are displayed on the day of his state funeral, in Bamako, Mali, April 30, 2026.   Mali Presidency via Facebook /Handout via REUTERS    THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY. NO RESALES. NO ARCHIVES. MANDATORY CREDIT. VERIFICTION: Reuters was not able to verify the location where the pictures were taken, however, Mali Presidency said in a statement that the ceremony took place on the parade ground of the 34th Military Engineering Regiment in Bamako. The date was confirmed by corroborating media and government reports. No old reports were found posted online before April 30.

Velório do ministro da Defesa do Mali, Sadio Camara, morto após ataques  cidade de Kidal – Reuters/Mali Presidency/Proibida reprodução

Terrorismo avança sobre o Sahel  

O pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), o historiador Eden Pereira Lopes da Silva, explicou que o governo do Mali tem dificuldades para abastecimento devido ao cerco que, apesar de ter se ampliado com a nova ofensiva, já vem de alguns meses.  

“Se o Mali cair, cria-se uma situação extremamente complicada para os outros dois países da AES, até porque o Mali é o país mais extenso territorialmente. Se ele cair, criaria uma Líbia dentro da região do Sahel e isso traria problemas não apenas para Burkina Faso e Níger, mas também para outros países da África Ocidental, como Gana e Costa do Marfim”, explicou.  

Com mais de 420 milhões de habitantes, a África Ocidental é rica em recursos naturais, ouro, petróleo, minérios, entre outros, apesar de a população ser uma das mais pobres do mundo e a mais afetada pelo terrorismo, com diversos grupos insurgentes islâmicos ativos. 


Brasília (DF), 03/05/2026 - Ex-colônias francesas dessas regiões da África como Burkina Faso, Níger, Mali e Senegal promovem transformações políticas e econômicas que reposicionam esses países no mundo.
Arte EBC
Brasília (DF), 03/05/2026 - Ex-colônias francesas dessas regiões da África como Burkina Faso, Níger, Mali e Senegal promovem transformações políticas e econômicas que reposicionam esses países no mundo.
Arte EBC

Sahel é a região que separa o deserto do Saara das florestas tropicais da África subsaariana Arte EBC

Eden acrescenta que o núcleo da luta terrorista tem migrado do Mediterrâneo, como Síria e Iraque, para a região do Sahel africano, sendo um ponto importante de recrutamento de integrantes.  

Na semana passada, após os ataques contra o Estado maliano, o chefe do governo Goïta apareceu em público para dizer que a situação estava controlada. Por meio de nota, a AES condenou o ataque “bárbaro e desumano”.  

“Que carrega a marca de uma conspiração monstruosa, apoiada por inimigos da luta de libertação do Sahel, empreendida pela dinâmica da AES”, diz o comunicado.  

Em reação às mudanças de governo em Burkina Faso, Níger e Mali a partir de 2020, a Comunidade Econômica da África Ocidental (Cedeao) expulsou esses países da organização. Sem acesso ao mar, as nações da AES sofrem ainda certo isolamento político dos demais vizinhos.  

Mali acusa França 

O Mali acusou a França de apoiar e financiar esses grupos considerados terroristas por meio de denúncia formal feita ao Conselho de Segurança da ONU, ainda em 2022.  

“O Mali possui diversas provas de que essas flagrantes violações do espaço aéreo maliano foram utilizadas pela França para coletar informações em benefício de grupos terroristas que operam no Sahel e para lançar armas e munições para eles”, diz o documento enviado à ONU. 

A França rejeita veementemente as acusações, classificando-as como infundadas e graves. “Há nove anos, a França afirma, juntamente com o Mali — e a pedido do Mali —, que está determinada a lutar contra os grupos terroristas armados e que 59 soldados franceses perderam a vida nessa luta”, respondeu a França.  

Antes de serem expulsos do Mali pelo novo governo, a França atuava na região contra esses grupos considerados terroristas.  

O jurista e analista geopolítico Hugo Albuquerque avalia que a ofensiva contra o Mali, e os sucessivos combates no Burkina Faso e no Niger, têm “o dedo do ocidente” que veria com maus olhos os governos de cunho nacionalista no Sahel.  

“Essa integração do Mali, Burkina Faso e Niger atrapalha profundamente os planos americanos e ocidentais para a exploração de recursos naturais e também atrapalha um caminho por terra do gasoduto que sai da Nigéria, que é outro projeto essencial. Eles querem derrubar esses regimes nacionalistas para, basicamente, voltar a explorar os recursos naturais”, explicou.  

Apoio da Rússia

Em compensação, os estados da AES passaram a receber apoio militar da Rússia, em especial, por meio da África Korps, que vem do grupo Wagner, formado por mercenários ligados à Moscou.  

O analista da ACLED (Dados sobre Localização e Eventos de Conflitos Armados) para África Ocidental, Héni Nsaibia, avaliou que a ofensiva dos grupos paramilitares no Mali demonstrou que o envolvimento russo não tem conseguido reverter a situação.  

“O recente anúncio do JNIM sobre um bloqueio total a Bamako provavelmente forçará os militares do Mali a priorizarem a segurança da capital e a relegar outras áreas a segundo plano”, escreveu em artigo.   

JNIM e FLA 

O pesquisador Eden Pereira Lopes da Silva explicou à Agência Brasil que o JMIN defende a implantação de um califado islâmico no Sahel, com base na Sharia (Lei Islâmica).  

“Ele é um braço da Al-Qaeda dentro do Sahel e ambiciona o estabelecimento de um Estado que abrange não apenas os povos do Mali, mas também de outras partes de Burkina Faso e Níger”, destacou.  

Por outro lado, o FLA é formado por grupos tuaregues, formados por tribos nômades, que lutam por formar um estado exclusivamente para população tuaregue naquela região e que, historicamente, atuaram em favor do império colonial francês.   

“Recentemente, eles ganharam uma importância muito grande por conta da reativação do comércio de armas naquela região, até mesmo tráfico de pessoas.  Os tuaregues, historicamente, têm o apoio da França”, disse.    

Interesses na desestabilização  

Para o historiador do NIEAAS, há muitos interesses para desestabilizar toda a região do Sahel africano, rico em recursos como ouro e urânio.  

“Percebemos uma coordenação no sentido de enfraquecer, vulnerabilizar e até mesmo derrubar esses estados por conta de uma tentativa de reação, não apenas da França, mas de outras potências da Europa e também até mesmo, possivelmente, dos Estados Unidos”, completou Eden Pereira.  

O analista Hugo Albuquerque pondera que as monarquias absolutistas do Oriente Médio, como Catar e Emirados Árabes Unidos, apoiam esses grupos jihadistas que servem como intermediários de interesses de potências ocidentais.  


Burkina Fasso. 23/05/2025 Presidente  Ibrahim Traoré  de Burkina Fasso. Foto Capitaine Ibrahim TRAORÉ/X
Burkina Fasso. 23/05/2025 Presidente  Ibrahim Traoré  de Burkina Fasso. Foto Capitaine Ibrahim TRAORÉ/X

Presidente Ibrahim Traoré de Burkina Fasso. Foto  – Capitaine Ibrahim TRAORÉ/X

“Esse jihadismo é, basicamente, uma estratégia mercenária que passa pelo Golfo, talvez pela Arábia Saudita, mas muito provavelmente passa pelo Catar, importante aliado da França, e que atravessa o interesse europeu e americano, mas principalmente Europa que é afetada pela guerra contra a Rússia”, disse, acrescentando que não é à toa que a Rússia apoia esses regimes da AES.  

O presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, o nome mais destacado entre os líderes da AES, que reivindica uma tradição anti-imperialista e anti-colonial na África, classifica o terrorismo no Sahel como uma expressão do imperialismo.  

“Acreditamos que o terrorismo que estamos testemunhando hoje vem do imperialismo, e estamos lutando contra ele. Se acabarmos com esta guerra, se tivermos um exército forte, seremos capazes de nos engajar no desenvolvimento de nossa pátria”, afirmou.

Fonte: Agência Brasil de Noticias

Samanda assume papel de suceder Fátima no Senado

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Ligadas pela trajetória: Samanda assume papel de suceder Fátima no Senado
De militante “danada” a substituta de Fátima na disputa pelo Senado. Foto: Arquivo Pessoal

“Samanda é Fátima”. Essa é a frase que a militância do PT repete desde que a vereadora foi anunciada para substituir a governadora como pré-candidata do partido ao Senado nas eleições de 2026. O slogan sintetiza a estratégia da legenda: reforçar a identificação entre as duas para transferir o capital político da líder petista à sua escolhida. A ligação entre Samanda Alves e Fátima Bezerra, no entanto, não vem de agora.

Os caminhos delas se cruzaram há mais de duas décadas, na correria da militância fazendo campanha nas ruas. O ano era 2002. O presidente Lula seria eleito pela primeira vez, Fátima se tornaria a deputada federal mais votada do RN. Samanda chamou a atenção dela entregando panfleto “pra cima e pra baixo”, como diz a vereadora, pilotando sua Honda Biz. “Eu era danada”, conta a atual presidente estadual do PT.

Samanda diz que começou a acompanhar mais de perto a atuação de Fátima, que naquele ano conquistara uma cadeira inédita para o PT do Rio Grande do Norte, com mais de 160 mil votos. Passada a campanha, depois de se formar em Engenharia da Computação, a militante “danada” foi trabalhar na área de informática no escritório do mandato da então parlamentar em Natal.

Logo passou a cuidar da agenda de Fátima, a quem assessorou durante 20 anos na Câmara dos Deputados, no Senado Federal e no Governo do Rio Grande do Norte.

De militante “danada” a substituta de Fátima na disputa pelo Senado. Foto: Arquivo Pessoal

Esteve na linha de frente da reeleição de Fátima em 2010, quando foi a deputada federal mais votada da história do Rio Grande do Norte, com mais de 220 mil votos. Depois, participou da vitoriosa campanha ao Senado em 2014 e das disputas pelo Governo do Estado em 2018 e 2022.

Além de assessorar Fátima, Samanda também foi coordenadora nacional de Políticas LGBT e atuou no Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT durante a gestão da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Em 2022, foi candidata pela primeira vez a deputada federal, mas ficou na primeira suplência da Federação Brasil da Esperança, formada pelo PT, PV e PCdoB. Após a primeira experiência como candidata, voltou a atuar no Legislativo no cargo de chefe de gabinete do deputado estadual Francisco do PT.

Elegeu-se vereadora de Natal em 2024, com 5.189 votos. No ano seguinte, ao lado da deputada estadual Isolda Dantas, foi eleita presidente do diretório do PT-RN. Em março, após Fátima anunciar que estava saindo da corrida pelo Senado em 2026, Samanda foi indicada pela governadora como sua substituta na disputa.

Samanda destaca semelhanças da sua trajetória com a de Fátima

Samanda com a governadora Fátima Bezerra, além de outras lideranças petistas, na sua posse como nova presidente do PT-RN. Foto: Divulgação

Até assumir esse protagonismo, a vereadora percorreu uma caminhada que, mantidas as devidas proporções, guarda semelhanças com a trajetória da governadora Fátima Bezerra.

“A principal semelhança é a nossa origem. Nós somos mulheres, nordestinas e filhas de trabalhadores. Nossas trajetórias se parecem muito com a da maioria do povo brasileiro: não nascemos em berço de ouro, viemos de famílias simples e apostamos na educação como caminho para transformar a nossa realidade”, diz.

Samanda lembra que, assim como a governadora Fátima Bezerra, ela também precisou deixar a cidade onde nasceu – Mossoró – para estudar em Natal. “Eu tinha muita vontade de ajudar minha família”, conta.

Na capital potiguar, ela estudou na antiga Escola Técnica Federal do RN (ETFRN), atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do RN (IFRN), onde iniciou sua militância no movimento estudantil.

Fátima, por sua vez, nasceu em uma família humilde de Nova Palmeira (PB) e mudou-se ainda na adolescência para Natal, no início dos anos 1970, onde se formou em Pedagogia pela UFRN. Ganhou projeção como dirigente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Rio Grande do Norte (Sinte-RN), iniciou sua carreira política filiando-se ao PT em 1981 e foi eleita deputada estadual em 1994.

Para Samanda, as semelhanças entre elas não se restringem à origem humilde de ambas, mas também ao “jeito de fazer política”.

“Fátima sempre foi uma referência pra mim, pela forma como ela fez política desde o início, com trabalho, coragem e os pés no chão, sem nunca esquecer as nossas origens nem as razões pelas quais lutamos”, narra ela que, assim como a governadora, sempre foi filiada ao PT.

“Foi na luta que fui me aproximando do PT. De lá pra cá, já são quase 30 anos de filiação. Nunca mudei de partido, nunca mudei de lado, sempre fui movida pela luta coletiva e pelo enfrentamento das injustiças”, acrescenta.

O desafio de ser “a nova Fátima Bezerra”

Samanda com a governadora Fátima Bezerra e o presidente Lula. Foto: Divulgação

A pré-candidata a senadora afirma que a convivência com a governadora foi uma “escola política” que lhe ensinou “o valor da escuta, da persistência e do significado de ser mulher na política, especialmente quando se vem das camadas populares, enfrentando desafios que muitas vezes não são percebidos pela maioria das pessoas”.

O desafio de ser “a nova Fátima Bezerra” não assusta Samanda. A comparação com a governadora, segundo ela, é motivo de “orgulho”. A vereadora afirma saber que “cada trajetória é única”, mas diz construir seu caminho “com os mesmos valores” da maior liderança do PT do Rio Grande do Norte.

“Nós fazemos parte do mesmo projeto político, que olha para a classe trabalhadora, para quem mais precisa e que acredita em um país mais justo e menos desigual. É isso que nos conecta”, ressalta.

Ela assegura que está preparada para ocupar a cadeira que um dia foi de Fátima no Senado, mas acrescenta que encara a missão “com muita humildade e responsabilidade”.

“A minha trajetória não começou agora. Eu dediquei mais de 20 anos da minha vida a percorrer o Rio Grande do Norte, trabalhando ao lado da governadora Fátima Bezerra e conhecendo de perto a realidade do nosso povo. Isso me deu experiência, capacidade de escuta e, principalmente, compromisso”, afirma.

Samanda pontua que, além do preparo, considera que os princípios também foram fundamentais para nortear a decisão de concorrer ao Senado.

“A gente vive um momento em que isso está cada vez mais raro na política. Eu sei exatamente de que lado estou. O Senado estará no centro da disputa política nos próximos anos e o nosso estado precisa de uma representação firme, que defenda a democracia, os direitos do povo e a soberania do Brasil”, avalia.

“Tentaram tirar a cadeira que o PT do RN voltaria a ter no Senado”, diz Samanda

Foto: Divulgação

Ela cita que “tentaram tirar a cadeira que o PT do RN voltaria a ter no Senado, mas não vão conseguir”, numa referência ao que foi considerada uma “traição” do vice-governador Walter Alves (MDB).

Em janeiro, Walter anunciou que não assumiria o Governo do Estado se Fátima renunciasse, como era o previsto, para concorrer ao Senado. Além disso, ele comunicou seu rompimento político com o PT para apoiar a pré-candidatura a governador do ex-prefeito de Mossoró Allyson Bezerra (União Brasil).

O movimento do vice-governador inviabilizou a renúncia de Fátima. Para não correr o risco de perder o governo para a oposição em uma eleição indireta que se realizaria na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte (ALRN), ela decidiu permanecer no cargo até dezembro de 2026.

Em uma “Carta ao Povo Potiguar”, divulgada em meados de março, a governadora disse que não colocaria em risco seu “compromisso com o RN” em troca de um “cargo no Senado”.

“A coragem sempre me acompanhou”, escreveu a governadora, que justificou sua permanência no cargo afirmando que a escolha estava acima de projetos pessoais. Fátima disse que considerava a disputa pelo Senado Federal como “legítima, esperada, necessária”, mas assegurou que não se guiava “por oportunismo ou interesse próprio”.

Fátima atribui saída da disputa pelo Senado a uma “manobra das velhas elites”

Foto: Divulgação

Ao participar recentemente do 8º Congresso Nacional do PT, realizado em Brasília (DF), Fátima manifestou confiança na chegada de Cadu Xavier, pré-candidato do partido a governador, ao segundo turno no RN e na eleição de Samanda para o Senado.

A governadora atribuiu sua saída da disputa eleitoral ao que chamou de “manobra das velhas elites”, mas afirmou que o movimento não conseguirá “tirar a cadeira de senador que é do PT e do povo do Rio Grande do Norte”.

Samanda faz eco às palavras de Fátima: “A gente sabe que a governadora não disputará essa eleição porque, mais uma vez, colocou os interesses do povo potiguar acima de qualquer projeto pessoal, desprovida de qualquer vaidade”.

Por isso, segundo ela, substituir a governadora nessa disputa “é uma grande responsabilidade, mas também um motivo de orgulho”.

“Nossas trajetórias estão ligadas não por uma estratégia de marketing, mas por uma história construída na luta e no trabalho. Tenho dedicado minha juventude a esse projeto e sei que não poderia estar em outro caminho, porque isso pra mim é uma missão”, completa.

Inspirada em Fátima, Samanda quer fazer história novamente pelo PT

Foto: Divulgação

Ao inspirar-se na trajetória da professora que virou deputada, senadora e depois governadora, Samanda acredita que é possível fazer história de novo ao reconquistar para o PT do Rio Grande do Norte uma vaga no Senado – um espaço que, até pouco tempo, era reservado aos representantes das tradicionais oligarquias políticas potiguares.

A mossoroense, filha da ex-empregada doméstica e professora aposentada Elineide Alves de Freitas e do ex-comerciante Valgmar Avelino de Freitas, Samanda tem consciência da dimensão da empreitada que a espera, mas assegura que não lhe faltam coragem, persistência e resistência para travar essa “luta coletiva”.

“Já passamos por momentos muito duros em nosso país, que tentaram calar quem lutava pelo povo, mas teve gente que não recuou. Fátima Bezerra mostrou que é possível. Uma mulher que nunca esqueceu da sua origem e que governa olhando para o povo. É nesse caminho que eu me reconheço. É por isso que eu estou pronta para dar um passo maior, para fazer essa luta chegar mais longe e alcançar ainda mais gente”, diz.

Fonte: saibamais.jor.br

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Filme potiguar Paradiso é selecionado para vitrine de mercado em Cannes

Ainda em fase de pós-produção, sem estreia marcada e com apenas um recorte de sete minutos pronto para exibição, Paradiso já começou a circular onde o cinema negocia seu futuro. O longa potiguar de ficção científica dirigido por Davi Revoredo foi selecionado para o VDF Showcase, vitrine de mercado da VDF Connection dentro do Marché du Film, o maior mercado de cinema do mundo, realizado paralelamente ao Festival de Cannes. Antes mesmo de chegar ao público, o filme produzido no Rio Grande do Norte passa a disputar atenção em um dos espaços mais estratégicos da indústria audiovisual internacional.

A seleção coloca Paradiso em um circuito menos glamouroso que o tapete vermelho, mas decisivo para o destino de um filme: o das reuniões com distribuidores, agentes de venda, programadores de festivais e potenciais parceiros de circulação. Em Cannes, Paradiso não terá exibição oficial no festival. O que será apresentado é um pitching, uma apresentação fechada do projeto para profissionais do setor, com fala do diretor Davi Revoredo e da produtora executiva Thalita, além de um teaser e de sete minutos do longa. É nesse ambiente, longe do brilho da première e perto das mesas de negociação, que o filme potiguar tenta garantir o que vem depois: festivais, contratos e circulação internacional.

“Vai ser exibido um trecho de sete minutos e um teaser numa sessão fechada para pessoas da indústria. Essas pessoas são programadores de festivais, agentes de vendas, distribuidores internacionais também, e a gente espera que o filme chame a atenção dessas pessoas para que a gente consiga formar mais parcerias e levar o filme para mais longe”, explica Revoredo em entrevista à Agência Saiba Mais.

A presença no Marché du Film já começa a produzir efeitos antes mesmo da viagem. Depois de ser incluído em uma matéria da Variety sobre os filmes selecionados para o VDF Showcase, Paradiso passou a receber contatos de festivais internacionais interessados em exibir o longa. Os nomes ainda são mantidos em sigilo, mas, segundo o diretor, as conversas já começaram. “Depois que foi publicado, a gente já recebeu e-mail de festivais, que eu não posso falar agora o nome porque ainda está apenas em conversas, mas nós já recebemos propostas de festivais para exibir o filme. São festivais muito bons, inclusive.”

A menção na Variety, uma das publicações mais influentes da indústria audiovisual, funcionou como selo de validação para um projeto ainda inédito. “É algo extraordinário a gente sair na maior revista de cinema do mundo, que é uma vitrine enorme, uma validação midiática gigantesca para nós”, diz Revoredo. A visibilidade importa porque, no mercado internacional, o caminho de um filme começa muito antes da estreia. Ele se constrói em laboratórios, mostras de mercado, encontros fechados e rodadas de negociação como a que Paradiso agora acessa.

Para um longa realizado fora do eixo tradicional do audiovisual brasileiro, a seleção tem peso simbólico e prático. Paradiso é o primeiro longa-metragem da Com Arte Cultural e marca a estreia de Davi Revoredo na direção de longas. Também é um dos projetos viabilizados pela Lei Paulo Gustavo no Rio Grande do Norte, política que, para o diretor, ajudou a produzir uma inflexão histórica no setor local.

“É um momento histórico no audiovisual potiguar, porque existem cinco longas-metragens sendo produzidos neste momento e todos esses filmes vão sair praticamente ao mesmo tempo”, afirma. “Isso representa uma virada.”

Filmado em Natal com equipe inteiramente potiguar, Paradiso mobilizou dezenas de profissionais e foi realizado com orçamento de R$ 1,5 milhão, abaixo do piso médio nacional para longas de ficção. Para Revoredo, o desempenho do filme até aqui ajuda a dimensionar o potencial do audiovisual potiguar, mesmo em condições limitadas.

“Aqui no Rio Grande do Norte a gente faz muito com pouco, mas a gente não quer fazer para sempre com pouco”, diz. “Esse investimento que está abaixo da média nacional já está rendendo frutos muito bons. Então imagine o que seria possível fazer se a gente tivesse um investimento dentro da média nacional.”

O argumento de Paradiso acompanha Isa, personagem que perde a mãe e herda suas dívidas. Na trama, a morte não encerra o vínculo: a mãe é digitalizada por uma big tech e enviada a um paraíso virtual, onde continua existindo como inteligência artificial. A partir dessa premissa, o longa cruza ficção científica, luto, precarização do trabalho e tecnologia. Para Revoredo, é justamente essa combinação que ajudou o filme a atravessar fronteiras antes mesmo de ser lançado.

“Eu acho que o que pesou para que o filme fosse levado para lá é muito a temática do filme. É um filme muito urgente, que fala sobre inteligência artificial, fala sobre a precarização do trabalho, sobre relação mãe e filha também, que são temas universais.”

Se para o diretor a ida a Cannes representa uma abertura de mercado, para a atriz Vênus de Morais, protagonista do longa, a seleção também reposiciona o que pode ser imaginado a partir do cinema feito no interior do Nordeste.

“Eu penso que a presença de Paradiso em Cannes é a prova viva de que o nosso audiovisual potiguar, nordestino e brasileiro tem um potencial gigantesco”, afirma. “Ver que essa magia, porque pra mim audiovisual é um pouco de magia, está ultrapassando mares e alcançando o maior festival internacional de audiovisual é surreal.”

Vênus interpreta Isa e vê no filme não apenas uma ficção distópica, mas uma experiência de deslocamento simbólico. Travesti negra de 26 anos, nascida no interior do Rio Grande do Norte, ela lê a presença de Paradiso em Cannes como uma fissura em estruturas que historicamente limitaram quem pode ocupar o centro da cena.

“Protagonizar Paradiso, sendo um filme que nasce no interior do Nordeste, que se propõe a criar um universo distópico com um elenco potiguar, é uma experiência potente o suficiente para mudar a sua vida”, diz. “Eu não quero ser a única. Quero que essas histórias, essas artistas, esses artistas que estão por aí possam sonhar cada vez mais e realizar isso.”

Paradiso segue em busca de parceiros para concluir sua trajetória de circulação. A ida ao Marché du Film é parte desse esforço. O filme ainda não está pronto, mas já começou a ser visto por quem decide o que atravessa fronteiras. E, para um longa potiguar de ficção científica feito com orçamento enxuto, isso já muda de escala o tamanho da estreia.

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Fonte: saibamais.jor.br

Identidades Confluentes

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Identidades Confluentes

Por Ana Paula Campos*

Agô! Chegando, peço licença para me apresentar. Chamo-me Ana Paula Campos e há pouco tempo eu era morena. Foi uma luta chegar até aqui porque, quando criança, ainda que sofresse com os impactos do racismo na minha subjetividade, não tinha discernimento para definir essas violências. Na vida adulta, descobri as teorias do feminismo negro e passei a nomear minhas vivências. Passei a me definir como uma mulher negra, mas o incômodo continuava. Recusava-me a ser apenas dor, era mais que isso. Eu não era a definição que os outros faziam de mim. Sendo assim, passei a buscar e entender de onde eu vim.

Estudar História da África foi um salto qualitativo na minha existência e afirmo: você não precisa ser negro para fazer essa trajetória. Estudar a História da África é estudar a História da humanidade. Mas, entre livros e leituras, lembrei-me da minha mãe, Edite Nogueira, dizendo: “sua avó é índia”. Quem, em sã consciência, queria ser “índio” na década de 90? Na TV, eu assistia o “índio” de Pica-Pau repetindo, de forma ameaçadora: “eu vou escalpelar você!”. Na escola, a narrativa que prevalecia era a de que “índio” era selvagem, preguiçoso e canibal. Eu não era nada disso.

Só depois que desenvolvi admiração pelo tom da minha pele e pelas minhas origens africanas decidi também conhecer a História real dos povos indígenas. Não aquela história escrita a sangue, contada nos romances brasileiros. Indígena Potyguara! Eu tinha uma história, uma cultura, uma cosmopercepção que me fazia gigante e eu tinha orgulho das minhas ancestrais como minha bisavó, Maria Veriana, descrita como “uma índia braba no sertão”.

Mas a espiritualidade não falha, e nossas ancestrais sempre encontram uma forma de nos fazer voltar para casa. Numa gira de Jurema, recebo um abraço afetuoso da cigana Diana Braz, que diz: “Você agora só quer falar de negro e índio, mas você é cigana também. Vá atrás!” Iniciei uma busca com os mais velhos da família, aqueles que já tinham me dado notícias sobre a minha avó materna, Maria Nogueira do Nascimento, indígena Potyguara. Foi então que as informações foram se revelando com certo receio, por medo ainda de perseguição. Meu avô materno, Evaristo dos Santos, era um cigano Calon. Viajou cidades e fez história com minha avó. Nascia minha mãe, fruto dessa pluralidade cultural.

Nunca falamos sobre isso, não diretamente, mas nossa casa tinha cheiro de mato e incenso. Aprendi a ler o baralho cigano e consultar minhas emoções nas cartas. Aprendi os passos da dança cigana e dançávamos sempre que estávamos tristes ou felizes. A dança era nossa manifestação mais bonita entre mãe e filha. Com minha avó, aprendi benzimentos. Sentada aos seus pés, enquanto ela, da rede, com galhos em mãos e um rezo baixinho, limpava meu corpo e curava quebranto.

Mais uma vez, segui a jornada dos livros em busca de informação sobre o povo Romani. Tive a honra de adquirir obras antigas que me conduziram a uma História de estereótipos, preconceitos, mas também de resistência. O que se romantiza nas redes sociais não condiz com a realidade, mas isso conto mais à frente.

Hoje, apesar da dor do racismo, não vivo mais em função de combatê-lo. Isso estava me adoecendo. Não me interessa como outros povos escolheram viver. Sou uma mulher de identidades confluentes, buscando viver minhas culturas de forma viva, ensinando isso para a minha filha, a cigana Sol, e levando isso para a sala de aula, onde mais e mais crianças se reconhecem como indígenas, negras e ciganas e onde crianças brancas repensam as atitudes dos seus antepassados e mudam o trançado da História de mãos dadas com outras etnias.

* Ana Paula Campos (Lua Callin)- Indígena Potyguara, Cigana Calon, mãe atípica, candomblecista e juremeira, Professora da rede pública, escritora, pesquisadora orgânica, bailarina e cartomante.

Fonte: saibamais.jor.br

O PT e a reforma política

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O PT e a reforma política

Entre os dias 24 e 26 de abril de 2026, foi realizado, em Brasília (DF), o 8º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores. Foram apresentados e discutidos um conjunto de textos temáticos, antecedidos por discussões internas no partido (fase de debates). Como parte da programação, foi publicada a versão final dos Projetos de Resolução e um manifesto à nação.

O congresso foi estruturado em quatro eixos temáticos: um programa de governo; uma análise da conjuntura e das táticas político-eleitorais; o programa partidário; e um projeto de resolução sobre organização e estatutos do partido (cuja discussão foi adiada para o próximo ano).

Além disso, foram apresentadas propostas do ex-deputado e dirigente do partido, José Dirceu, bem como o documento intitulado Socialismo, soberania e direitos: programa do PT para transformar o Brasil (Soberania, igualdade, democracia, desenvolvimento e socialismo), assinado por Maria Carlotto, Natália Sena, Breno Altman e Valter Pomar, além de outro texto sobre a Fundação Perseu Abramo (subsídios para a sistematização da discussão sobre a fundação).

Ao final, foi aprovado e divulgado o documento Construindo o futuro: manifesto do PT para seguir transformando o país.

No que se refere à reforma política, o tema aparece na seção O Brasil da democracia, da soberania e do bem viver, mais especificamente no item Reformar o sistema político, no conjunto das reformas estruturais propostas pelo partido, tendo como horizonte programático o socialismo democrático. A proposta organiza-se a partir de três eixos centrais do projeto nacional de desenvolvimento “já em curso no governo Lula 3”: reconstrução do papel do Estado como indutor do desenvolvimento, por meio do fortalecimento do investimento público, do planejamento, da participação social e das políticas estruturantes, bem como da superação de seus pressupostos autoritários e elitistas; retomada do crescimento econômico com distribuição de renda, riqueza e patrimônio, enfrentando o rentismo e ampliando direitos; e transição produtiva, tecnológica e ambiental, “orientada pela sustentabilidade e pela soberania nacional”.

Defende-se também uma proposta de reforma agrária popular, considerada “medida imprescindível para democratizar o acesso à terra em um país que ainda ostenta a maior concentração fundiária do mundo”.

O conjunto das propostas está inserido em reformas consideradas decisivas, “sem as quais o projeto democrático-popular permanecerá bloqueado”. São elas: reforma política e eleitoral – capaz de democratizar o poder, restituir a soberania popular e alterar o atual modelo de execução orçamentária por meio de emendas parlamentares; reforma tributária – para corrigir distorções do sistema de impostos, financiar direitos e ampliar a progressividade tributária; reforma do Poder Judiciário – com o objetivo de promover sua democratização, criar mecanismos de autocorreção e fortalecer o Estado de Direito; reforma tecnológica – com vistas à soberania produtiva, científica e digital; reforma administrativa – voltada à reconstrução do Estado e ao fortalecimento da capacidade pública; reforma agrária – garantindo soberania alimentar, desenvolvimento e democracia no campo; e reforma da comunicação – proibindo monopólios no setor, propondo a criação de um sistema público de comunicação e avançando na regulação democrática das plataformas digitais.

Ao discutir ao que chamou de estratégias e comunicação para a encruzilhada de 2026, destacou a importância dos avanços sociais do governo Lula no qual “as políticas públicas deixaram de ser vistas como favores de um governante de ocasião; passaram a ser reivindicadas como patrimônio coletivo da cidadania e são conquistas do povo, subordinadas à essência do estado, não a mandatos”.

Quanto à proposta de reformar o sistema político, destaca-se a importância de corrigir distorções na representação, “enfrentar privilégios e combater práticas antirrepublicanas que persistem no sistema político”. Defende-se ainda a democracia participativa, com a criação do Orçamento Participativo Nacional, “por meio do qual a cidadania ativa, de modo organizado, definirá anualmente prioridades de investimento do Orçamento da União”. Na proposta de resolução de conjuntura e tática política e eleitoral, entre outros aspectos, propõe-se uma reforma política e partidária profunda, na qual o voto deverá ocorrer em listas partidárias que respeitem a paridade de gênero e os instrumentos de representação popular, com previsão de cotas mínimas de representação étnico-racial.

Na análise da conjuntura nacional, destaca-se a existência de uma crise de representação e o fato de o funcionamento do Congresso Nacional ser “um espaço historicamente hegemonizado por interesses das elites econômicas”. Critica-se o sistema de emendas parlamentares de natureza individual, que gera graves distorções, bem como o presidencialismo de coalizão – centrado no voto proporcional unipessoal – que “gera estruturalmente distorções políticas, cooptação e práticas de ‘compra política’ em nome da governabilidade”, além da captura do orçamento público por meio de emendas impositivas.

No documento O programa do PT para transformar o Brasil: soberania, igualdade, democracia, desenvolvimento e socialismo (emenda substitutiva global), assinada por Maria Caramez Carlotto, Natália Sena, Breno Altman e Valter Pomar, os autores apresentam um conjunto de propostas organizado em diversos tópicos em “defesa de transformações estruturais necessárias ao país”. Em relação à reforma política, defende-se a mudanças do sistema eleitoral, incluindo a proposta de um parlamento unicameral (proporcional ao número de eleitores em cada estado), a adoção do voto em lista partidária, a proibição de coligações proporcionais, o financiamento público exclusivo de campanhas eleitorais e a instituição de mandatos limitados para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e para desembargadores dos tribunais regionais e estaduais.

O problema central reside em como viabilizar tais propostas, tanto as constantes no programa de governo quanto às apresentadas por esse grupo, de modo que ultrapassem o plano das intenções. Surgem, assim, perguntas relevantes: a quem caberia estabelecer mandatos limitados para ministros e desembargadores? Ao governo, ao próprio Judiciário ou ao Congresso Nacional? De que forma isso seria implementado?

Outra questão diz respeito à possibilidade de alterar o sistema de presidencialismo de coalizão. Como fazê-lo diante da necessidade de construção de alianças eleitorais, historicamente utilizadas para garantir governabilidade? Haveria disposição, do governo e do parlamento para abandonar esse modelo?

A proposta de voto em listas partidárias com representação paritária e cotas étnico-raciais constitui um avanço importante. No entanto, questiona-se como aprová-la em um Congresso frequentemente apontado como um dos piores da história republicana, sem indícios de mudanças significativas em sua composição nas próximas eleições?

No artigo A Câmara é a trincheira do retrocesso, publicado no Diário do Centro do Mundo (2 de julho de 2025), ao analisar os enfrentamentos do governo Lula com o Congresso Nacional, Edward Magro, articulista do DCM, afirma: “O que se revela, despido de disfarces, é a luta de classes — não como abstração acadêmica, mas como realidade concreta que nos espezinha. Ela está viva, documentada em percentuais, declarações e votações. A elite congressual atua com fervor na defesa dos interesses de seus pares e trava guerra aberta contra os direitos dos trabalhadores, dos pobres e dos excluídos. Compõem essa casta privilegiada, tão zelosamente defendida pela direita, desde os antigos mamadores-gerais da República — agronegócio, rentistas, especuladores, grandes empresários — até os novos financiadores do bolsonarismo: a indústria armamentista, as igrejas pentecostais, as bets e o crime organizado”.

Em outro artigo, no mesmo DCM (Congresso em excesso, democracia em falta, 29/04/2026), dando continuidade as suas reflexões sobre o Congresso Nacional, afirma que ele passou a ocupar uma centralidade desproporcional e cita um exemplo recente, a rejeição da indicação de Jorge Messias para o STF no Senado (e pode ser acrescido à votação no dia 30 de abril, da derrubada do veto presidencial ao projeto que reduz as penas aplicadas pelo STF aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. Foram 318 votos a favor e 144 contra na Câmara e 49 a favor, contra 24 no Senado).

Estas votações não foram fatos isolados, episódicos, mas parte de uma questão estrutural “que alterou a relação entre os poderes, sem que isso se traduzisse em maior responsabilidade institucional”, e destaca a concentração de forças (e poderes) no Legislativo, em um Congresso hipertrofiado “desproporcional com os parâmetros éticos mínimos que legitimam o exercício do poder” e ao fato de que “A presença significativa de parlamentares vinculados ao crime organizado, a atuação das bancadas da bala, do boi e da bíblia, além de operadores do sistema financeiro travestidos de parlamentares, revela um conjunto de interesses e práticas que desafiam a legalidade e já não constituem um desvio marginal, mas parte do próprio funcionamento institucional”.

Nesse sentido, com essa composição, como esperar que o Congresso aprove uma reforma política ampla e democrática? Como impedir, entre outros exemplos, a captura do orçamento público por meio de emendas parlamentares impositivas?

Desde o fim da ditadura, em 1985, diversas propostas relevantes de reforma política não foram aprovadas pelo Congresso Nacional, com exceção de medidas pontuais, como a minirreforma eleitoral de 2015. Diante dessa lacuna, o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a exercer papel decisivo em temas como fidelidade partidária, financiamento de campanhas (fim do financiamento de pessoas jurídicas para os partidos), cota de candidaturas femininas e o fim orçamento secreto, ocupando um espaço que, em tese, caberia ao Legislativo.

Quanto a proposta de um Orçamento Participativo Nacional, constante no programa do partido, também se apresenta como relevante, embora complexa. Sua implementação exigiria articulação com governos estaduais e municipais, o que levanta questionamentos sobre viabilidade, levando em conta o histórico de experiências e indagações sobre as razões para sua retomada apenas neste momento.

Em relação à adoção de um sistema unicameral, embora existam exemplos internacionais, como são os casos de Israel e Portugal, por exemplo, questiona-se a viabilidade de tal mudança no Brasil e qual instância teria legitimidade para promovê-la, especialmente considerando os interesses envolvidos.

O mérito das propostas reside na disposição de enfrentar temas relevantes e propor mudanças estruturais. No entanto, a possibilidade de sua implementação permanece limitada. Historicamente, o Partido dos Trabalhadores defende a reforma política, mas nunca conseguiu aprová-la, em grande parte devido à ausência de maioria no Congresso Nacional, que continua.

Ao longo dos anos, diversas Comissões Especiais elaboraram propostas consistentes, e apesar de bem fundamentadas, com a colaboração de especialistas, acadêmicos etc., não foram sequer votadas. Esse cenário se repetiu em diferentes governos, inclusive em períodos que eles tinham ampla base de apoio parlamentar, como nos governos de Fernando Henrique Cardoso (dois mandatos, 1995-2002) e os dois primeiros governo de Lula (2003-2010).

Diante disso, questiona-se como realizar uma reforma política ampla e democrática com a atual composição do Congresso, ou mesmo com uma configuração futura possivelmente ainda mais à direita.

Assim, embora necessárias e urgentes, mudanças estruturais no sistema político, partidário e eleitoral parecem depender de alternativas mais profundas, como a convocação de uma Assembleia Constituinte – mesmo que seja apenas para fazer uma reforma política – hipótese que, no momento, encontra-se fora do horizonte político imediato.

Fonte: saibamais.jor.br

o debate sobre o fim da escala 6 x 1

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Menos pânico, mais história: o debate sobre o fim da escala 6 x 1

Ao longo da história brasileira, previsões de colapso econômico têm sido um recurso recorrente de setores ultraconservadores das elites sempre que direitos sociais entram em pauta.

No final do século XIX, os escravocratas já espalhavam mentiras ao dizer que a abolição da escravatura levaria ao colapso da economia. O mesmo método foi usado pela burguesia nacional durante a República, que alardeava ser inviável para as empresas a implantação dos direitos previstos na Consolidação das Leis do Trabalho, como férias, jornada regulada e proteção ao trabalhador.

Quando Vargas e João Goulart propuseram o 13º salário e o salário mínimo, respectivamente, a imprensa ajudou a disseminar pânico na sociedade ao prever a falência em massa de empresas. Exemplos não faltam: também diziam que a reforma agrária provocaria um caos na produção do país e ainda mentem sobre os programas sociais, alegando que causariam dependência e desestímulo ao trabalho. Quem nunca ouviu dizer que a expansão do acesso à educação, como o programa de cotas, reduziria a qualidade do ensino?

O roteiro se repete: anuncia-se o caos, prevê-se desemprego em massa, fala-se em fuga de investimentos.

Mudam as pessoas, mudam os nomes dos personagens, mas o discurso e o objetivo são os mesmos. Até porque representam os mesmos setores ultrapassados e conservadores, contrários aos avanços sociais, o que impacta as desigualdades regionais e dificulta uma distribuição de renda mais justa.

O tempo, porém, costuma revelar outra coisa: a capacidade de adaptação da economia e da sociedade.

Esse padrão histórico ajuda a iluminar o debate contemporâneo sobre o fim da escala 6×1 no Brasil. A proposta, que busca reduzir jornadas exaustivas e ampliar o descanso semanal, já enfrenta as mesmas reações previsíveis: “vai quebrar empresas”, “vai gerar desemprego”, “o país não aguenta”. São frases que ecoam quase como um refrão conhecido, repetido em diferentes épocas, sempre que trabalhadores pleiteiam condições mais dignas.

Isso não significa que mudanças desse tipo sejam simples. Alterações na organização do trabalho exigem planejamento, diálogo e transição responsável. Setores econômicos têm dinâmicas distintas, e os impactos não são uniformes. Mas transformar qualquer avanço social em sinônimo de catástrofe iminente empobrece o debate público e ignora lições básicas da própria história brasileira.

A discussão sobre a escala 6×1 toca em um ponto central: qual modelo de desenvolvimento o Brasil pretende seguir. Um país que naturaliza jornadas longas e desgaste extremo tende a reproduzir desigualdades e baixa produtividade no longo prazo. Por outro lado, experiências internacionais indicam que melhores condições de trabalho podem conviver com ganhos de eficiência, inovação e qualidade de vida. A questão, portanto, não é apenas “quanto custa”, mas também “que tipo de sociedade se quer construir”.

Nosso mandato acompanha esse debate há vários anos, no Rio Grande do Norte e também em Brasília. Nesta semana, a Câmara dos Deputados instalou a Comissão Especial que vai tratar das duas PECs que acabam com a escala 6×1. Por indicação do PT, eu e a deputada Natália Bonavides faremos parte, como suplentes, da comissão.

Insisto no alerta que tenho feito nos últimos meses: precisamos fortalecer a mobilização, nas redes sociais e também nas ruas de todas as cidades brasileiras. É fundamental, neste momento, conversar com trabalhadoras e trabalhadores ainda distantes desse debate e, principalmente, pressionar deputados e senadores a votarem a favor da redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas, garantindo mais um dia de descanso, sem redução de salário.

Toda essa campanha de mentiras e desinformação que assistimos ao longo da história, sempre que a sociedade luta por direitos sociais, foi enfrentada com pressão do povo nas ruas. E, dessa vez, não será diferente. Desejo por mudança não falta: pesquisas recentes indicam que mais de 70% da população é favorável ao fim da escala 6×1.

Dados do governo federal mostram que 14 milhões de brasileiros trabalham na escala 6×1, com apenas um dia de descanso. Desse total, 1,4 milhão são trabalhadoras domésticas. Outra informação relevante indica que 26,3 milhões de celetistas não recebem horas extras, o que revela jornadas frequentemente mais longas na prática.

Em 2026, esse debate ganha um peso ainda maior. O país se encontra diante de decisões que vão além de medidas isoladas: precisamos definir rumos sociais, políticos e econômicos para as próximas décadas. Em momentos assim, o uso de previsões alarmistas pode funcionar como freio, seja por má-fé, inércia, medo ou defesa de interesses estabelecidos.

Olhar para trás ajuda a qualificar esse momento. O Brasil não quebrou com o fim da escravidão, não colapsou com direitos trabalhistas básicos, não entrou em ruína com a ampliação de políticas sociais. Ao contrário, avançou, de forma desigual e incompleta, é verdade, mas avançou.

O desafio atual é evitar que o debate sobre o futuro do trabalho seja capturado por um passado de previsões que raramente se confirmam. Questionar, calcular impactos e ajustar propostas é essencial. Mas também é essencial reconhecer quando o “vai quebrar” deixa de ser análise e passa a ser apenas um eco histórico alto, repetido e, muitas vezes, equivocado.

Fonte: saibamais.jor.br