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Jornada de Carolina Maria de Jesus será contada pela Unidos da Tijuca

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A menina Bitita é quem vai abrir o desfile da Unidos da Tijuca em 2026, para contar, desde o começo, a vida da escritora, cantora, compositora e poeta brasileira Carolina Maria de Jesus. Na língua changana ou xichangana, de Moçambique, Bitita significa panela de barro de cor ocre ou preta, representando resistência e ancestralidade.

A escritora recebeu esse apelido do avô Benedito, no início do século passado, e essa será apenas uma de “outras diversas Carolinas” que vão passar pela Sapucaí para contar a trajetória da autora consagrada, como “a doméstica”, “a grávida”, “a louca do Canindé”, “a catadora”, “a escritora”, “a marionete” e “a do carnaval”.

“É um enredo bem biográfico. A história se desenvolve cronologicamente”, pontuou o carnavalesco Edson Pereira em entrevista à Agência Brasil. “O que a Tijuca faz é colocar a Carolina no palco”.

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Apesar da grandeza que tem, argumenta o carnavalesco, sua história é pouco divulgada e, por isso, precisa ser contada.

“A gente vive em um momento, não só do país, mas da cultura do nosso país, em que a gente precisa acender a luz daqueles que foram apagados pela nossa história. A Carolina representa muito bem a força da mulher”, afirmou.

 


Rio de Janeiro (RJ), 14/01/2026 - Edson Pereira, carnavalesco da Unidos da Tijuca, fala sobre o enredo do desfile de 2026 da escola que vai homenagear a escritora Carolina Maria de Jesus, no barracão da escola, na Cidade do Samba.  Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 14/01/2026 - Edson Pereira, carnavalesco da Unidos da Tijuca, fala sobre o enredo do desfile de 2026 da escola que vai homenagear a escritora Carolina Maria de Jesus, no barracão da escola, na Cidade do Samba.  Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Edson Pereira, carnavalesco da Unidos da Tijuca, fala sobre o enredo do desfile de 2026 da escola que vai homenagear a escritora Carolina Maria de Jesus. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil 

Apagamento e força

Foi o avô alforriado e contador de histórias que influenciou Carolina a criar as suas histórias, assim como com as mulheres da família.

“Ela aprendeu os segredos que só o tempo revela no encanto do falar e do ouvir; e, nas barras das saias de sua mãe, tias e madrinhas, se entrelaçou ao poder das coisas ditas, ao espírito desconhecido das letras e palavras, aquelas às quais ela desejava conhecer”, traz a sinopse da Tijuca, texto no qual as escolas explicam o enredo que vão apresentar nos desfiles.

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, em uma comunidade rural da cidade de Sacramento, em Minas Gerais. Os sonhos de deixar o interior a levaram para São Paulo. A mudança não resultou no que esperava e foi o começo de muitas adversidades. Sob muito preconceito, lutou até se tornar escritora. 

“A história da Carolina enquanto escritora que foi apagada é algo que nos fascina não pelo apagamento, mas pelo empoderamento dela. A Carolina enquanto mulher, enquanto preta, enquanto resistência”, comentou o carnavalesco, lamentando que atualmente os problemas são os mesmos. “É triste falar sobre isso, mas é uma realidade”.

Em São Paulo, ela foi morar na favela do Canindé. Foi lá que começou a relatar todos os preconceitos e histórias de feminicídios e viu que o desenvolvimento social não chegava aos pretos.

“Ela começa a se entender no lugar de opressão”, indicou Edson Pereira, acrescentando que Carolina sonhava também em ter comida no prato para alimentar os filhos. “É um carnaval de reconhecimento, de botar o dedo nas feridas”, relatou.

Edson adiantou que a terceira alegoria da Azul e Amarela da Tijuca é dedicada ao livro Quarto de Despejo – Diário de uma favelada, que se transformou em sucesso ao vender 10 mil exemplares na semana de lançamento, em 1960.

A obra, escrita a partir de anotações que fazia em diários contando histórias de vizinhos, foi também traduzida para ao menos 14 idiomas e lançada em mais de quarenta países.

“É todo feito de papelão, de material alternativo”, descreveu o carnavalesco sobre a composição da alegoria, em uma referência ao tempo que a escritora era catadora e construiu sua casa com o dinheiro que ganhou vendendo papelão entre outros materiais.

 


São Paulo - Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras escritoras negras do Brasil, é considerada uma das mais importantes escritoras do país. A autora viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na Zona Norte de São Paulo. Foto: CCSP
São Paulo - Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras escritoras negras do Brasil, é considerada uma das mais importantes escritoras do país. A autora viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na Zona Norte de São Paulo. Foto: CCSP

Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras escritoras negras do Brasil, é considerada uma das mais importantes do país Foto: CCSP

Saúde mental

Botar toda esta história de pé para contar da forma como o carnavalesco idealizou não é uma tarefa fácil, e vem sendo realizada pela dupla de diretores de carnaval da Tijuca, Fernando Costa e Elisa Fernandes.

Embora seja o seu primeiro ano nesta função, Elisa não é uma desconhecida na Tijuca, onde já foi assessora de imprensa. A experiência no carnaval, no entanto, vai além dessas passagens. Até 2025, esteve por 10 anos na direção de alegorias da Portela.

Elisa disse que a nova missão é de muita responsabilidade, por ter que gerenciar o projeto, o barracão e a feitura de fantasias e alegorias. Apesar de já ter tido essa experiência na União de Jacarepaguá, ela agora tem a oportunidade de realizar o trabalho no Grupo Especial.

“A coisa cresce muito. O Grupo Especial é muito forte. É o maior espetáculo da Terra, mas, para mim, está sendo um grande prazer”, comentou.

Como método para melhorar as condições de trabalho dos profissionais que preparam o carnaval, Elisa trouxe uma novidade para os bastidores da Tijuca.

“Eu introduzi uma equipe de psicólogos. Hoje, os artistas da escola têm esse cuidado, porque eu acredito que alguns segmentos têm uma pressão muito grande”, contou,

Entre os que utilizam o serviço estão passistas, casal de mestre sala e porta-bandeira, responsáveis pelos ateliês e o setor administrativo da escola. De acordo com a diretora, é necessário ter esse momento de autocuidado, de parar tudo e prestar atenção em si mesmo, diante do trabalho para fazer tudo funcionar na avenida.

“Estou tentando convencer o presidente a fazer também. Ele ainda não fez, mas disse que vai fazer”, indicou.

Força da mulher

Elisa se orgulha de poder, no primeiro ano na função, ter pela frente um enredo em homenagem a Carolina Maria de Jesus. “Eu, como uma mulher negra, no primeiro ano na direção de carnaval, pegar um enredo desse é um presente até difícil de explicar. Estou me matando para fazer jus a essa possibilidade que me foi dada”.

“Carolina é muito importante. Ela inspira outras mulheres a serem o que elas quiserem, porque Carolina não era só escritora. Ela também era cantora e compositora, eu também sou cantora e compositora”, contou.

A escolha do enredo teve a sua participação, lembrou ela. Elisa chegou a defender o enredo diante do presidente da escola. “Fui incisiva. Eu falei ‘olha esse é o melhor que nós temos. Acredito que esse é um enredo que vai fazer a diferença, porque Carolina é muito grande”.

Para a diretora de carnaval, a escritora representa a força de todas as mulheres e também sua versatilidade.

“Acredito nessa coisa de multitarefa da mulher. A sociedade exige de nós essa polivalência. Somos seres polivalentes por nós mesmas. Nós somos sementes da Carolina. A gente só está continuando o trabalho dela e tendo a oportunidade de homenagear uma mulher que já deveria ter sido homenageada há muito tempo”.

Conheça os enredos e a ordem dos desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro

1º dia – domingo (15/2)

  • Acadêmicos de Niterói – Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil;
  • Imperatriz Leopoldinense – Camaleônico;
  • Portela – O Mistério do Príncipe do Bará;
  • Estação Primeira de Mangueira – Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra

2º dia – segunda-feira (16/2)

  • Mocidade Independente de Padre Miguel – Rita Lee, a Padroeira da Liberdade;
  • Beija‑Flor de Nilópolis – Bembé do Mercado;
  • Unidos do Viradouro – Pra Cima, Ciça;
  • Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus.

3º dia – terça-feira (17/2)

  • Paraíso do Tuiuti  – Lonã Ifá Lukumi;
  • Unidos de Vila Isabel – Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África;
  • Acadêmicos do Grande Rio – A Nação do Mangue;
  • Acadêmicos do Salgueiro – A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau.

Fonte: Agência Brasil de Noticias

Socialista Antônio Seguro é eleito presidente de Portugal

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O socialista Antônio José Seguro foi eleito hoje (8) novo presidente de Portugal, ultrapassando a barreira de 3 milhões de votos. Ele derrotou o candidato da extrema-direita André Ventura, no segundo turno das eleições portuguesas. 

Com mais de 11 milhões de cidadãos aptos a votar, Seguro tinha conseguido, até as 21h30 (horário local), mais de 3,3 milhões de votos. Seu adversário, André Ventura, tinha obtido 1,6 milhão de votos, e a abstenção estava próxima dos 50%.

Apenas outras quatro vezes desde 1976 um presidente da República foi eleito com mais de 3 milhões de votos no país, sendo Mário Soares o único a consegui-lo por duas vezes. Na primeira eleição, em 1986, as únicas até hoje a terem um segundo turno, o histórico líder socialista obteve 3.010.756 de votos (51,18%) frente a Freitas do Amaral. Na reeleição, em 1991, 3.459.521 eleitores votaram em Soares, que venceu com expressivos 70,35%, uma percentagem que ainda hoje figura como a maior já registrada nas eleições portuguesas.

Antônio Ramalho Eanes também foi reeleito com mais de 3 milhões de votos (3.262.520, ou 56,44%) em 1980, enquanto Jorge Sampaio recebeu 3.035.056 milhões de votos (53,91%) na sua primeira eleição, em 1996.

Esta foi a 11ª vez que os portugueses foram às urnas escolher o presidente da República durante períodos democráticos, desde 1976.

Eleito em 2016, o atual residente de Portugal é Marcelo Rebelo de Sousa, que termina o seu mandato em março de 2026.

Desde 1976, foram eleitos António Ramalho Eanes (1976-1986), Mário Soares (1986-1996), Jorge Sampaio (1996-2006), Cavaco Silva (2006-2016) e Marcelo Rebelo de Sousa (2016-2026).

 

*Com informações da Agência Lusa


Fonte: Agência Brasil de Noticias

Como matar uma mulher sem deixar rastros?

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“Como matar uma mulher sem deixar rastros?”

Essa pergunta foi feita ao Google 163 milhões de vezes em 2025, segundo dados do Anuário de Segurança Pública.

Pasmem!

O choque é ainda maior quando, conforme outros dados divulgados pelo IBGE, tomamos consciência que a população estimada do Brasil nesse mesmo ano é de 213,4 milhões de habitantes. É como se somente 50, 4 milhões de brasileiros não estivessem interessados em matar uma mulher sem deixar rastros.

É curioso, ou trágico, como o Brasil conseguiu transformar o feminicídio em culpa da vítima. A mulher morre e o que fica é a manchete: Uma mulher foi morta… NÃO! O texto deveria estar na voz ativa: Um homem matou mais uma mulher.

Um homem que assassinou uma mulher porque possui um ódio bem treinado, um ressentimento disciplinado, uma pedagogia da posse que começa no berço, passa pela igreja, pela escola, pela mesa do bar, pela mesa do jantar, pela mesa de decisões, todas, historicamente, sem mulheres.

Esta semana, o presidente da República sancionou o Pacto Nacional de Prevenção à Violência contra as Mulheres. Um pacto. Uma palavra bonita, solene, quase romântica, se não fosse trágica. Um pacto para que mulheres não sejam mortas por quem diz amá-las. Um pacto para que o óbvio, “não mate mulheres”, precise ser transformado em política pública, orçamento, campanha educativa, capacitação de profissionais, monitoramento de risco, botão do pânico, casa-abrigo, medida protetiva, tornozeleira eletrônica, disque-denúncia, fila prioritária, estatística, relatório, plano, comissão, grupo de trabalho, audiência pública, nota de repúdio, luto oficial.

O pacto é necessário. Urgente. Fundamental. Mas também é sintoma. Sintoma de uma sociedade que ainda não conseguiu ensinar seus homens que amor não é posse, que cuidado não é controle, que ciúme não é zelo, que “quem ama não mata” não é slogan, é regra básica de convivência humana.

Enquanto isso, seguimos assistindo ao teatro da heterossexualidade, esse grande espetáculo onde homens performam virilidade, poder, força, domínio e mulheres performam paciência, tolerância, resiliência, silêncio.

Segundo a filósofa americana Marilyn Frye:

“Dizer que um homem é heterossexual implica somente no fato de que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que diz respeito ao amor, a maioria dos homens heterossexuais reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram, respeitam, adoram, reverenciam, a quem honram, imitam, idolatram e formam profundos vínculos, a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender, e cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam, essas são, esmagadoramente, outros homens. Nas suas relações com as mulheres, o que passa por respeito é bondade, generosidade ou paternalismo, o que passa por honra é a remoção do pedestal. Das mulheres querem devoção, serviço e sexo.’’

Trocando em miúdos: homens se amam entre si. A nós, mulheres, resta o papel de serviçais emocionais, sexuais, domésticas, espirituais. Querem de nós devoção, serviço e sexo. Amor mesmo, guardam para os amigos, os chefes, os líderes, os “irmãos”.

Talvez por isso matem com tanta facilidade. Porque não amam. Possuem.

E não, não me venham com a desculpa do álcool, da droga, da crise financeira, da infância difícil, do desemprego, da traição, do ciúme, do “surto”. A violência contra a mulher não é um desvio individual: é um projeto social. É uma estrutura. É uma pedagogia. É uma política não declarada, mas eficaz.

Enquanto isso, seguimos ensinando nossas meninas a atravessar a rua mais rápido à noite, a não usar tal roupa, a não olhar nos olhos, a não provocar, a não confiar, a não ir sozinha, a não rir alto, a não existir demais. E seguimos ensinando nossos meninos a não chorar, a não pedir ajuda, a não demonstrar afeto, a não perder, a não recuar, a não ouvir, a não respeitar, a não aceitar não como resposta.

O pacto sancionado esta semana não é um favor às mulheres. É uma dívida histórica. É o mínimo. É o Estado, finalmente, reconhecendo que o problema não está na mulher que denuncia, mas no homem que agride. Que o problema não é a mulher que “escolheu mal”, mas uma sociedade que educa mal. Que o problema não é a mulher que “não saiu a tempo”, mas um sistema que não oferece saída, abrigo, proteção, renda, autonomia, rede de apoio.

E aqui faço questão de registrar: não basta proteger mulheres depois da violência. É preciso impedir que ela aconteça. É preciso agir antes do primeiro tapa, antes da primeira ameaça, antes da primeira humilhação, antes do primeiro controle, antes da primeira chantagem emocional, antes da primeira “brincadeira” que dói, antes da primeira porta batida, antes do primeiro “se você me deixar, eu te mato”.

Mas vamos ser honestas: não adianta esse pacto sancionado sem pacto social. Não adianta lei sem mudança cultural. Não adianta política pública sem revisão profunda das masculinidades. Não adianta tornozeleira se o tornozelo continua acreditando que o corpo da mulher é propriedade privada.

E, sim, eu vou debochar. Porque às vezes só o deboche dá conta do absurdo. Vamos fingir, por um minuto, que o problema é a mulher. Que ela fala demais, que ela provoca, que ela trai, que ela não sabe se comportar, que ela não respeita o homem, que ela quer direitos demais, que ela quer igualdade demais, que ela quer viver demais. Vamos fingir que o problema não é um sistema inteiro que ensina homens a odiar mulheres com flores, músicas românticas, pedidos de casamento ajoelhados e promessas de “até que a morte nos separe”, (e, às vezes, separam mesmo, e quase sempre, quem morre é ela).

O pacto é uma tentativa de romper esse ciclo. De interromper essa herança de violência passada de pai para filho, de avô para neto, de tio para sobrinho, de vizinho para vizinho, de pastor para fiel, de professor para aluno, de chefe para funcionária, de namorado para namorada, de marido para esposa, de ex para ex.

Mas não nos iludamos: o pacto não é varinha mágica. Ele não vai impedir que amanhã, em alguma casa, em algum bairro, em alguma cidade, uma mulher seja espancada, estuprada, esfaqueada, enforcada, queimada, jogada da janela, enterrada no quintal, esquecida na estatística. O pacto não ressuscita ninguém. Ele apenas tenta impedir a próxima morte.

“Isso já é muito” – dirão. Mas ainda é pouco.

Porque o que precisamos, de fato, é um pacto com a vida das mulheres. Um pacto que comece na infância, passe pela escola, pela família, pela mídia, pelas igrejas, pelos bares, pelos estádios, pelos tribunais, pelos palácios, pelas casas, pelos quartos, pelas camas. Um pacto que diga, sem rodeios: mulher não é coisa, não é prêmio, não é posse, não é propriedade, não é extensão do ego masculino, não é depósito de frustrações, não é saco de pancadas emocional, não é alvo de ódio mascarado de amor.

Enquanto isso não acontece, seguimos enterrando mulheres. Seguimos velando corpos. Seguimos escrevendo colunas. Seguimos contando números. Seguimos nomeando vítimas. Seguimos perguntando “por quê?”. Seguimos respondendo “por causa do machismo”. Seguimos vivendo como se isso fosse natural. Seguimos indo trabalhar no dia seguinte. Seguimos.

Mas não deveríamos seguir assim.

Talvez o pacto seja o começo de uma interrupção. Um ponto fora da curva. Uma tentativa de romper a repetição. Uma fresta. Uma rachadura nesse muro grosso que separa o discurso da prática, a lei da vida, o direito da realidade, a proteção do abandono.

E, se você chegou até aqui pensando “isso não é comigo”, sinto informar: é. Porque o feminicídio não começa no soco. Começa na piada. No silêncio. Na conivência. No “não é bem assim”. No “tem dois lados”. No “mas ele era tão bom rapaz”. No “ela também provocava”. No “não sabemos o que aconteceu entre quatro paredes”. No “mas ela é louca por ele”.

A pergunta acessada 163 milhões de vezes “como matar uma mulher sem deixar rastros?” permite escancarar uma realidade tão absurda, tão chocante, revela uma face tão sombria sobre como a sociedade machista, patriarcal e misógina vê e trata todas as mulheridades, que me faz pensar sobre como nós, mulheres, resistimos a tudo isso, vivendo tão ameaçadas?

Que o pacto recém-sancionado não seja apenas mais um papel bonito em uma gaveta feia. Que seja instrumento, ferramenta, escudo, espada, rede, abrigo, farol. Que seja, sobretudo, um compromisso real com a vida das mulheres.

Porque nós já fizemos pactos demais com a morte.

E, francamente, está na hora de quebrá-los.

Fonte: saibamais.jor.br

Carnaval: coletivos no DF encontram na folia caminho para autocuidado

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Com olhos emocionados e, ao mesmo tempo, com sorriso no rosto, a professora carioca Carmen Araújo, de 59 anos, deixou o samba tomar conta de seus pés neste domingo (8), em uma folia pré-carnavalesca em Brasília. 

Ela, que cuida do pai há 15 anos com a doença de Alzheimer, sabe que é sempre tempo de cuidar de si mesma.  


Brasília, DF 08/02/2026 Com o mote
Brasília, DF 08/02/2026 Com o mote

Brasília, DF 08/02/2026 Carmem Araújo cuida do pai com Alzheimer. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Carmen é uma das integrantes do coletivo Filhas da Mãe, que foi fundado em 2019 e tem por objetivo apoiar pessoas que são cuidadoras (na maior parte das vezes, mulheres) de familiares com doenças demenciais.

Durante o tempo de folia, o coletivo ganha as vestes de bloco carnavalesco. 

“Se a gente não se cuidar, adoecemos também”, explica.

O amor pelo carnaval foi herdado do pai, que tem hoje 89 anos.

“Ele sempre gostou muito. Até recentemente ele ainda participava. Hoje não é mais possível”.

Ela se emociona ao se lembrar do pai, sempre tão animado e organizado. Carmen entende que participar do coletivo fez com que ela pudesse colaborar com outras famílias e histórias semelhantes. 

Rede de apoio

Uma das fundadoras e diretoras do Filhas da Mãe, a psicanalista Cosette Castro explica que a ideia do coletivo surgiu a partir das dores e soluções entre os cuidados com a mãe, que faleceu há cinco anos.

“Eu sou filha única e cuidei 10 anos da minha mãe, que teve Alzheimer. As pessoas falam muito de remédio, de como cuidar. Mas ninguém olha para nós que estávamos cuidando e com sobrecarga”, considera. 


Brasília, DF 08/02/2026 Com o mote
Brasília, DF 08/02/2026 Com o mote

Brasília, DF 08/02/2026 Cosette Castro é uma das fundadoras do grupo Filhas da Mãe. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Cosette afirma que é necessário recuperar a criança que existe dentro de cada pessoa.

“Às vezes, a gente imagina que não tem mais direito ao riso e se sente culpada por se sentir feliz porque os dias são de muita responsabilidade por 24 horas ao dia”. 

A psicanalista explica que o coletivo atende, no dia a dia, pelo menos 550 pessoas em projetos que funcionam como rede de apoio, com serviços, inclusive, virtuais de forma voluntária. A ideia é trabalhar muito com promoção de saúde e garantir visibilidade à necessidade do diagnóstico precoce das doenças demenciais, como o Alzheimer, e também à sobrecarga das cuidadoras. 

Ela cita que problemas como lesões na coluna, fibromialgia, hipertensão, problemas cardíacos e transtornos mentais são comuns nesse público. “São pessoas que não dormem, têm insônia e um nível de ansiedade altíssimo”.

Por isso, o coletivo utiliza eventos, como caminhadas e exposições, para prestar informações ao público. Inclusive no carnaval.  

Aliás, ela testemunha que os sons têm valor terapêutico. No caso de sua mãe e de outras cuidadoras, as letras das músicas foram uma das últimas memórias perdidas. 


Brasília, DF 08/02/2026 Com o mote
Brasília, DF 08/02/2026 Com o mote

Brasília, DF 08/02/2026 – Márcia Uchôa, uma das fundadoras do grupo Filhas da Mãe. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Na casa de Márcia Uchôa, de 69 anos, a mãe, Maria, de 96, que também tem diagnóstico de Alzheimer, ama a música e o crochê.

Só não apareceu na folia com receio da gripe. Chovia em Brasília neste domingo.

“A gente precisa se cuidar e o carnaval está dentro da gente”, afirma.

Contra preconceitos 

Ao lado da festa do Filhas da Mãe, outro coletivo local, Me chame pelo nome, desfilava alegria em nome da causa anti capacitista com uma fanfarra formada por pessoas com deficiência. 

Segundo a servidora pública Aline Zeymer, uma das coordenadoras do grupo, esse será o segundo carnaval do grupo com o intuito de combater o preconceito, além de promover resistência e cuidado pelo caminho da arte. 

Fonte: Agência Brasil de Noticias

Pra não dizer que não falei de Fred…

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Uma pequena homenagem a um cara gigante

Pra mim, não é fácil falar de Fred. Porque não tenho certeza de que qualquer coisa que eu escreva sobre ele vai traduzir exatamente o que sinto e trazer a fidelidade e o reconhecimento ao significado da existência dele nesse mundo, e pra ruma de gente a quem, como eu, ele concedeu o privilégio de sua amizade.

Desde o seu encantamento em janeiro de 2025, às vésperas do aniversário dele (era 30 ou 31 de janeiro? Nunca lembrei direito e dava os parabéns nos 2 dias, na dúvida), que eu tento, sem sucesso, rascunhar um texto em homenagem a esse cara massa, que, no início, me odiava, sem nem mesmo me conhecer 🤦🏼‍♀️🤣.

Essa história é engraçada, e eu lembro com muito carinho. Nosso Fred era mesmo impliquento, e guardava ranços nem sempre justificáveis, mas sempre compreensíveis. Ele disse que me odiava por causa das pessoas com quem eu andava. “Não é possível que essa menina seja gente boa como dizem”, revelou uma vez, depois que “o jogo virou”.

Mas como é que o jogo virou? Cara, depois que me separei do pai da minha filha, voltei a morar em Natal, e tinha poucas amizades, já que fui pra Brasília logo depois de formada e fiquei 6 anos por lá. Aos poucos fui saindo, na medida das possibilidades de vida social de uma mãe solteira de criança pequena estudando pra concurso e cuidando da mãe doente, que acabou se encantando em julho de 2008, depois que um câncer a consumiu.

Saiba Mais: Jornalista Fred Luna tem morte cerebral confirmada

Carolina Villaça e Fred Luna nos embalos de uma noite qualquer / Foto: cedida

Fred estava sempre nessas festas, nas rodas de novos velhos amigos, e eu o cumprimentava sem nem imaginar esse “ódio” que ele sentia. E foi num Carnaval em Olinda que tudo mudou. Acho que em 2009, já no primeiro ano de concursada, finalmente estava livre pra sair pra onde eu quisesse, e foi quando recebi o convite inusitado e irrecusável de passar o Carnaval em Olinda com uma galera que eu conhecia bem poucas pessoas, num motel “de respeito” no pé da cidade. Kkkkkk.

Cheguei foi tarde lá, numa sexta de Carnaval, e muita gente já tava dormindo, numa cama enorme que dava pra umas dez pessoas. Me aboletei ao lado de Fred, e o póbi disse que acordou no outro dia de ressaca, e o primeiro rosto que viu era daquela menina que ele “odiava”. Imagine a cena. Começou a passar mal, e eu e Mariana nos disponibilizamos a ajudar. Apesar do entojo que ele tinha de mim, sem que eu soubesse, comprei água de côco, cuidei dele durante as subidas e descidas naquelas ladeiras, e no final do dia estávamos melhores amigos de infância! Kkkkkk.

A partir daquele dia, não desgrudamos mais. Foi o melhor Carnaval das nossas vidas! E fico feliz e grata por também ter conseguido passar com ele o último Carnaval da vida dele, em Beagá. Eu não estava muito bem de saúde, pressão alta e muito cansaço, passei mal e perdi muito bloquinho massa, mas fui tratada como uma rainha por ele e Emeve , sempre preocupados que eu ficasse bem. Lembro que ele achou que eu ia morrer e falou: “Mulher, imagina só! Como que eu ia dar uma notícia dessas pra Marina?”

Me sinto extremamente privilegiada por hoje saber o quanto ele me amava e também à minha filha. Porque, Fred, cara: eu sempre vou te amar, viu, bicho impliquento e lindo?

Fonte: saibamais.jor.br

Uma epifania com Chico Chico

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“Vou me ater aos fatos: o amor nunca falhou. As coisas acontecem de uma hora para outra, mesmo que demorem a vida inteira para acontecer”. Fui ao show de Chico Chico e saí com a sua interpretação de “Norte” pulsando no coração. A música é de autoria de Carlos Posada, cantor e compositor nascido na Suécia, criado no Recife e há vários anos radicado no Rio de Janeiro. A experiência do show de Chico Chico me enterneceu profundamente. Pensei na minha própria vida, nos meus afetos, na história dele e na minha, nas confluências de sermos frutos de multiparentalidades e no curioso acaso de ele fazer aniversário no mesmo dia da minha mãe, Maria.

Fui para ver de perto o “menino bonito” que cresceu e que, desde a infância, já anunciava a potência artística que hoje se confirma. Ainda criança, no festival Rock in Rio (2001), participou do show de sua mãe, Cássia Eller, tocando percussão em “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana. O gesto precoce de autonomia criativa tornou-se um dos momentos mais emblemáticos daquela edição do festival, levando o público ao delírio.

Duas vezes Chico, revela-se como uma das expressões mais vigorosas da música popular brasileira contemporânea. No palco, é inquieto e inventivo, conciliando ternura e intensidade em cada gesto. Frequentadora assídua de atividades culturais, confesso que fui transportada para um território interior raro da minha subjetividade: sua presença artística acendeu um espaço bonito em mim. Brincante e de timbre original, atiça os sentidos. Ele está inteiro, todo entregue ao próprio som.

Dono do palco e, ao mesmo tempo, generoso com os músicos, Chico Chico cria espaço para que os instrumentos também se expressem. A banda, criativamente chamada Banda Banda, participa de forma viva e orgânica da construção do espetáculo. Ele ocupa todos os espaços sem sufocar os exímios músicos que o acompanham, com profunda reverência à parte instrumental, com ricos improvisos embelezando ainda mais o Tempo de louças, Tanto pra dizer, Hora h, Urmininu, Vila do Sossego, Acorda Zé. A felicidade, Vapor Barato, Menino Bonito, Árvore. Só fez falta “As folhas da Praça Paris.”

Além de um repertório impecável e de um acervo autoral expressivo, recupera a autenticidade de quem faz do ofício um prazer. É impossível sair indiferente à experiência sensorial que sua apresentação provoca. Chico Chico diverte-se enquanto canta e nos devolve, em ato, uma pergunta fundamental: o que pode um corpo? Salta, gira, caminha, rodopia, sobe, desce, circula, faz cambalhota e sensualiza. A presencialidade expressa uma pluralidade estética que dialoga com referências do cancioneiro que ele aprecia de Waly Salomão, Jards Macalé, Zé Ramalho, Edson Gomes, Gonzaguinha, Raul Seixas, Rita Lee e Cazuza.

Seu nome foi escolhido em homenagem à canção “Francisco”, de Milton Nascimento, gravada por Nelson Faria no álbum Iô Iô (1993), ano de seu nascimento. O que mobilizou Cássia Eller a nomear o seu rebento foi a beleza dos falsetes que a música possibilitava. Foi um gesto sublime oferecer ao filho um nome inspirado em uma canção estonteante.

A presença de palco de Chico Chico nos convida a pensar os destinos de nossas inquietações. Ele as converteu em beleza, potência e autenticidade, onde habita uma originalidade que se encarna fugindo das expressões tradicionais. Ele é duplo, múltiplo e ontologicamente diverso.

Plural como sua própria origem, Chico é fruto do desejo de Cássia Eller de reinventar o amor e a maternidade, e da cumplicidade de Tavinho Fialho, baixista que acompanhou a Legião Urbana no álbum V. Francisco nasce do exercício da autonomia afetiva e erótica de seus pais. Ocorre que Tavinho partiu tragicamente em um acidente de carro, seis dias antes do nascimento do filho. Sua ausência foi eternizada por Renato Russo na canção Love in the Afternoon, do álbum Descobrimento (1993), inteiramente dedicado a Fialho, deixando como herança um verso que atravessou gerações: “É tão estranho, os bons morrem jovens.

O litígio familiar estabelecido pela guarda de Chico Chico, após Cássia Eller partir para os outros mundo de Deus, resultou em jurisprudência paradigmática no sistema de justiça brasileiro ao reconhecer os vínculos socioafetivos construídos entre ele e Maria Eugênia, relativizando a primazia da herança biológica. Abriu-se, assim, caminho para a proteção jurídica de outras formas de parentalidades no direito das famílias no Brasil.

No palco e nas aparições públicas, vemos um artista que nos parece conciliado com a própria história. A escolha do nome artístico é afirmação de trajetória e visão de mundo. Na fusão entre singularidade e multiplicidade, emerge um artista raro, ancorado no bom gosto e na autenticidade. Foi uma vivência apoteótica contemplar sua vibrante inquietação, aquela que desloca tudo dentro da gente, que ilumina a alma e estimula os sentidos. Um hipnótico desassossego sustentado por gestos variados: ele canta sentado no chão, descalço, circula livremente entre a plateia, entrega tudo de si e, despretensiosamente, constrói uma ambiência única.

Ele evolui com liberdade e constrói a própria trajetória, fundando uma existência que reverencia sua ancestralidade e se autoriza a parir o novo. Chico Chico, siga firme convidando o Brasil a “pedir piedade aos que não sabem amar”. Trata-se de um gesto político e poético de afirmação da vida, memória e dos direitos.

Fonte: saibamais.jor.br

Defesa Civil de SP retoma gabinete de crise após previsão de chuvas

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A Defesa Civil do estado de São Paulo informou que retomou, na tarde deste domingo (8), o gabinete de crise para chuvas e deslizamentos no estado. A iniciativa ocorre após a previsão de chuvas superar a marca dos 100 mm por dia, considerada de perigo extremo.

Participam do gabinete órgãos governamentais, como agências reguladoras, Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros, além das concessionárias de energia, abastecimento de água, serviço de gás e telefonia, com o intuito de diminuir o tempo de atendimento a emergências nas cidades mais atingidas.

“As precipitações se intensificaram nas últimas 24 horas em razão da atuação de um sistema de baixa pressão no oceano, associado à Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). Os maiores acumulados foram registrados na Faixa Leste, Litoral e Noroeste do estado”, informou o órgão.

A cidade de São Carlos registrou o maior volume de chuva nas últimas 24 horas, com 137 mm, seguida por Ubatuba (129 mm), Bertioga (126 mm), São Sebastião (119 mm), São José do Rio Preto (105 mm), Caraguatatuba (103 mm), Elias Fausto (100 mm) e São Luís do Paraitinga (83 mm).

“Os volumes são considerados extremamente elevados para um único dia. Para efeito de comparação, em São Carlos, a média histórica de chuva esperada para todo o mês de fevereiro é de 169,9 mm. Em apenas 24 horas, choveu cerca de 80% do total previsto para o mês, o equivalente à chuva de aproximadamente 24 dias”.

“Em Ubatuba, o acumulado representou 72,5% do volume mensal, enquanto em São José do Rio Preto o total registrado corresponde ao esperado para cerca de 15 dias de fevereiro”, complementou a Defesa Civil.

Houve registro de alagamentos, deslizamentos de terra e quedas de barreiras em diferentes regiões do estado, além de 13 pessoas desalojadas e quatro desabrigadas. Não há registro de mortes e feridos.

Orientações à população

A Defesa Civil orienta que a população adote medidas preventivas para reduzir riscos durante períodos de chuva intensa, como evitar áreas sujeitas a alagamentos, enxurradas e deslizamentos.

Outra recomendação é não atravessar ruas alagadas ou áreas com correnteza, ficar atento a sinais de deslizamento, como rachaduras no solo, inclinação de árvores ou postes e estalos em encostas, e acompanhar os alertas oficiais da Defesa Civil, por meio de telefones ou sirenes.

Fonte: Agência Brasil de Noticias

Cineasta potiguar Rodrigo Sena conquista o Júri Popular em Tiradentes

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Entre 53 curtas-metragens exibidos na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, um filme do Nordeste, feito sem patrocínio e movido a afeto, conquistou o público e saiu vencedor do Júri Popular. “Recife tem um Coração”, dirigido pelo fotógrafo e cineasta potiguar Rodrigo Sena, tornou-se o curta mais votado do festival, um dos mais importantes do cinema brasileiro.

Além do diretor, integram a equipe Wallace Santos, Adolfo Ramos, Arlindo Bezerra e Jota Marciano.

Para Sena, o prêmio carrega um sentido que vai além do troféu.

“É a confirmação de que estamos caminhando na direção certa”, resume.

Selecionado entre mais de mil filmes inscritos, o curta avançou até a mostra competitiva e, ali, encontrou o olhar e a sensibilidade do público.

“A gente faz filmes, mas nunca sabe, de fato, como eles vão chegar às pessoas. Ser escolhido pelo Júri Popular é uma alegria imensa e simbólica”, afirma o diretor.

Com menos de 15 minutos de duração, “Recife Tem um Coração” mergulha na vida de Silvo Silva, cantor de música brega e figura carismática das redes sociais. O ponto de partida é simples: após perder sua caixa de som, Silvo mobiliza seguidores para conseguir outra. Mas o filme vai muito além do registro desse episódio. O que se constrói na tela é um retrato sensível de um personagem e de um território, atravessado por camadas sociais, emocionais e afetivas do Recife popular.

Segundo Rodrigo Sena, a força do filme está justamente nessa simplicidade.

“Vivemos um tempo de relações cada vez mais artificiais. Silvo chega com uma verdade desarmada, olha o mundo com autenticidade, e isso toca profundamente”, diz.

Para ele, o afeto é a palavra-chave para entender a identificação do público com o curta.

Existe uma beleza enorme no que é simples e verdadeiro”, diz.

A trajetória do filme também carrega a marca do cinema feito no Nordeste. O prêmio em Tiradentes se soma a um reconhecimento anterior, no Festival de Brasília, em 2020, e reforça um movimento coletivo que vem ganhando corpo.

“Essa validação não é só minha. Ela atravessa uma trajetória de realizadores, técnicos e artistas da região. O Nordeste vive um momento muito potente no cinema”, avalia.

Esse movimento é especialmente perceptível no Rio Grande do Norte. Por muito tempo discreto no cenário nacional, o cinema potiguar começa a ocupar novos espaços. Rodrigo aponta a democratização da tecnologia e o papel das políticas públicas como fatores decisivos.

Hoje vemos colegas finalizando seus primeiros longas, festivais atentos ao que produzimos e uma cena criativa pulsando. Esse prêmio chega como parte desse movimento coletivo”, destaca.

A própria existência de “Recife Tem um Coração” é resultado dessa força coletiva. O curta não contou com nenhum tipo de apoio financeiro. A equipe decidiu se tornar sócia do projeto, apostando no filme desde o início. “O maior desafio foi o orçamento”, relembra Rodrigo. “Criativamente, o desafio era condensar a intensidade de Silvo e daquele território em tão pouco tempo. A escuta e a entrega de todos foram fundamentais.”

A gênese do filme também passa pelas redes sociais. Rodrigo conheceu Silvo por meio de vídeos publicados na internet e se emocionou de imediato. Já existia um youtuber, Domel, que registrava o cotidiano do cantor. A partir dessas imagens e das vivências compartilhadas, o diretor desenvolveu a dramaturgia do curta.

Cinco estrelas

A recepção crítica acompanhou o entusiasmo do público. O crítico Frank Carbone, do portal Vertentes do Cinema, atribuiu cinco estrelas ao filme e destacou o olhar atento de Rodrigo Sena para a “geografia marginal do Recife”, além da construção de um dos personagens mais sensíveis exibidos em Tiradentes nesta edição. Para ele, o curta articula personagem, cidade e afeto com uma artesania rara no cinema contemporâneo.

Com o prêmio, surgem também novas perguntas. A história de Silvo Silva pode virar um longa-metragem? Rodrigo não descarta a possibilidade, mas prefere manter os pés no chão.

“O curta é um campo de experimentação. No Rio Grande do Norte, estamos atravessando agora essa fronteira e produzindo nossos primeiros longas”, observa.

O universo do brega, segundo ele, segue despertando interesse. “É uma expressão popular muito forte, sensível, capaz de emocionar profundamente.”

Mais do que uma conquista individual, a vitória de “Recife Tem um Coração” em Tiradentes reafirma o vigor do cinema potiguar e nordestino no circuito nacional. Um cinema feito com poucos recursos, mas com escuta, entrega e afeto. Um cinema que, como o próprio filme sugere, pulsa a partir do coração.

Saiba Mais: A Sétima Arte nas salas de aula: Cinema estudantil revoluciona a educação no RN

Fonte: saibamais.jor.br

Bad Bunny, vencedor do Grammy e crítico de Trump, canta no Super Bowl

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Neste domingo (8) de clássicos pelo futebol brasileiro, como Corinthians x Palmeiras ou Vasco x Botafogo, a partida entre New England Patriots e Seattle Seahawks, pela final da NFL (liga estadunidense de futebol americano), às 20h30, também deve chamar atenção. 

No caso, não somente pelo duelo esportivo no Levi’s Stadium, que fica em Santa Clara, na Califórnia, mas também pelo show especial no intervalo.

A estrela será o cantor porto-riquenho Bad Bunny, de 31 anos. Bad Bunny é o nome artístico de Benito Antonio Martinez Ocasio, nascido na cidade de Vega Baja. 

O artista foi o vencedor do prêmio de Melhor Álbum Urbano, no Grammy Awards (prestigiado reconhecimento à indústria fonográfica), pelo disco Debí Tirar Más Fotos, no último dia 1º. O álbum tem músicas apenas em espanhol.

Bunny já ganhou três Grammy Awards e onze Latin Grammy Awards

Ao receber o prêmio, o cantor fez um discurso de agradecimento com críticas aos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). 

“Fora, Ice”, disse o artista. “Nós não somos selvagens, não somos animais. Somos seres humanos e somos americanos”, afirmou.

No entanto, Bad Bunny também destacou a necessidade de, neste momento de tensões, evitar sentimentos negativos e propagar o amor.  

“Quero dizer, para as pessoas que estão assistindo, para não propagar o ódio. Estava pensando que às vezes a gente fica contaminado, e o ódio acaba se tornando mais poderoso quando você se agrega ao ódio. E a única coisa mais potente que o ódio é o amor”, afirmou.

Trump não vai

Em vista das posições do artista, o presidente Donald Trump garantiu, durante a semana, para o jornal The New York Times, que não iria comparecer à final do Super Bowl.

“Acho que é uma péssima escolha. Tudo o que isso faz é semear ódio. Terrível”, disse ao jornal. 

O horário do intervalo, com o show do artista, depende do desenvolvimento do jogo. Em geral, dura cerca 1h30. Por essa conta, Bunny deve se apresentar a partir das 22h, no horário de Brasília. 

A atração vai ser transmitida no Brasil nos seguintes canais: Sportv, Getv, ESPN, Disney+ e NFL Game Pass (DAZN).

Fonte: Agência Brasil de Noticias

TST avança na inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho; RN ainda enfrenta entraves

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O lançamento do Programa Transformação pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) no último mês reacendeu no Rio Grande do Norte um debate que permanece aberto e atravessado por retrocessos recentes. Voltada à inclusão social e à redução das desigualdades no mercado de trabalho, a iniciativa nacional estabelece ações afirmativas com foco especial em mulheres trans e travestis, em alusão ao Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro.

Para marcar a data, o TST e o Conselho Superior da Justiça do Trabalho iluminaram suas fachadas com as cores da bandeira trans, gesto simbólico acompanhado de uma medida concreta: a determinação de que, no mínimo, 10% das vagas em contratos de prestação de serviços contínuos firmados pelos órgãos sejam destinadas a mulheres de grupos vulneráveis. Desse total, 5% são reservadas especificamente a mulheres trans e travestis, com prioridade para pretas e pardas, trabalhadoras do sexo e egressas do sistema prisional.

A iniciativa, segundo o presidente do TST, ministro Vieira de Mello Filho, busca enfrentar diretamente a exclusão histórica dessa população do mercado formal de trabalho, transformando compromissos institucionais em políticas públicas efetivas. No Rio Grande do Norte, no entanto, a medida nacional contrasta com uma decisão recente do Tribunal de Justiça do estado, que derrubou uma política semelhante aprovada em âmbito estadual.

A Lei nº 11.587, sancionada em 2023, previa a reserva de 5% das vagas de emprego em empresas beneficiadas por incentivos fiscais ou que mantivessem contratos com o poder público estadual para pessoas travestis e transexuais. Apesar de aprovada pela Assembleia Legislativa, a norma foi considerada inconstitucional após decisão do TJRN, em ação movida por entidades empresariais.

Presente na cerimônia de assinatura do Programa Transformação, em Brasília, a coordenadora de Diversidade Sexual e Gênero do Rio Grande do Norte, Rebecka de França, relatou à Agência Saiba Mais a emoção ao acompanhar o anúncio da medida nacional, mas também frustração diante da realidade local. “Eu estava lá no dia da assinatura e fiquei triste porque a gente tinha uma medida como essa aqui no Rio Grande do Norte que infelizmente foi derrubada por um desembargador”, afirmou.

Segundo Rebecka, a experiência reforçou a percepção de que o Judiciário pode exercer um papel decisivo na garantia ou negação de direitos. “Quando eu vi essa assinatura, meu olho encheu de água. Me emocionei e vislumbrei que um dia esse desembargador voltasse atrás do veto que ele deu à nossa lei”, disse. Para ela, a iniciativa do TST evidencia que políticas afirmativas voltadas à população trans são juridicamente possíveis e socialmente necessárias.

A coordenadora também destacou que o veto à lei das cotas não foi um episódio isolado. De acordo com Rebecka, trata-se do terceiro veto do mesmo desembargador a políticas voltadas à população LGBTQIAPN+ no estado, incluindo a obrigatoriedade de cartazes educativos, a gratuidade de documentos para retificação de nome e gênero e, por fim, a reserva de vagas de emprego para pessoas trans e travestis.

O contraste entre a decisão do TST e a revogação da lei potiguar expõe uma disputa mais ampla sobre o papel das ações afirmativas na promoção da igualdade material. Enquanto a Justiça do Trabalho avança na construção de políticas voltadas à inclusão, o Judiciário estadual optou por uma leitura estritamente formal da Constituição, desconsiderando desigualdades históricas e dados alarmantes sobre a exclusão social dessa população.

Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais indicam que 122 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil apenas em 2024, e que mais de 90% dessa população enfrenta dificuldades extremas para acessar empregos formais. Para movimentos sociais e defensoras de direitos humanos no Rio Grande do Norte, ampliar o acesso ao trabalho é uma estratégia central para garantir dignidade, renda e cidadania, além de reduzir vulnerabilidades que seguem colocando pessoas trans entre as mais expostas à violência e à marginalização.

Nesse cenário, o Programa Transformação surge não apenas como uma política nacional, mas como um parâmetro que reacende o debate local e evidencia que a inclusão da população trans no mercado de trabalho depende menos de impossibilidades jurídicas e mais de escolhas institucionais.

SAIBA + Nova lei facilita retificação de nome e gênero para pessoas trans e travestis no RN

Fonte: saibamais.jor.br